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AS HISTÓRIAS NA HISTÓRIA - A BATALHA DE ALJUBARROTA
Intervenção do Senhor Coronel Victor Valente dos Santos nas Conversas de Fim de Tarde da SHIP, proferida em 2 de Fevereiro de 2006.
- Fontes históricas
- Guerra ciência ou arte? Importância da informação
- Estratégia e táctica
- Algumas práticas guerreiras medievais
Composição da hoste régia
A hoste régia em movimento
Garantir coesão e disciplina – condestável
Evitar ataques de surpresa (velocidade de marcha; profundidades)
Resolução de tarefas diárias (alimentação, alojamento e transporte)
Características do combate medieval
Entrincheiramento de um estacionamento
- Comparação entre oponentes (Acção de comando; efectivos; armamento)
- Participação inglesa
- Obstáculos e Baixas
- Descrição da batalha Real
- Algumas reflexões
1. As fontes históricas desta batalha foram várias e de origens distintas, o que terá motivado interpretações diferentes:
Pedro Lopes Ayala, cronista-mor, fazia parte do séquito real de Castela e acompanhou D.Juan na fuga precipitada para Santarém. Próximo do seu rei, deve ter calado algo que sabia por motivos de ordem política. Se não deturpou pode ter omitido.
D. João de Castela, no pouco que escreveu tentou justificar a derrota com a valorização das dificuldades encontradas. (Carta à cidade de Múrcia)
João Froissard, historiador francês, descreveu o acontecimento em dois textos. No primeiro, apoiado em relatos de intervenientes franceses (Gascão de Mauléon) reproduziu sem controlo. Os narradores não tendo em grande conta os peninsulares procuraram explicar o desaire sofrido com a boa concepção inglesa agravada pela má actuação castelhana.
Depois, com base no relato do cavaleiro João Fernandes Pacheco, vencedor de Trancoso e Aljubarrota, apresentou versão de maior rigor e mais crédito. Referiu pormenores sobre fortificações no terreno, com ramos de árvores, bem como um estreito caminho deixado ao invasor para conduzir o ataque.
Fernão Lopes, cronista-mor português, quarenta anos depois da batalha, após ouvir testemunhas e ter acesso a documentos importantes, escreveu crónicas que não menciona fortificações no terreno. Julga-se que terá lido as “Crónicas de los Reys de Castilla” de Ayala contra a qual se insurge. Contudo considera-se este texto fundamental para entender a batalha real.
Ximenes de Santoval, general espanhol, em 1872, realizou investigação ampla e rigorosa que constitui compilação notável deste decisivo evento.
Comissão Portuguesa de História Militar, (Historiadores T.Cor. Augusto Botelho da Costa Veiga, Cap. Gastão de Melo Matos, arqueólogo T.Cor. Afonso do Paço) realizou em 1952, escavações no campo da batalha. Encontraram a norte e leste da ermida de S.Jorge o grande fosso, de orientação N-S, com cerca de 190 m de comprido e 0,80 m de largura média e profundidade.
Novas escavações a sul, numa área de 150x100m, puseram a descoberto quatro fossos e 40 filas de covas de lobo com comprimentos entre os 60 e 80 m. As “covas de lobo” (cerca de 830) estavam dispostas em espinha relativamente ao fosso norte da área. No dizer espantado do prof. Peter Russell da Univ. de Oxford durante a visita aos trabalhos “terá de ser revisto tudo quanto sobre táctica medieval nos referem os historiadores”.
Junto da ermida (30m a sul) foi achada outra cova com valioso espólio osteológico constituído por 2.874 ossos humanos que corresponderão a 414 indivíduos. A idade dos ossos baseada na datação de duas tíbias por carbono 14, no laboratório Beta Anlytics em Miami, aponta claramente para o período em torno de 1370 (+-50 anos), contemporâneo da batalha.
As escavações vieram provar que Ayala tinha razão.
Tomando por base a localização do posto do comando, onde depois foi erigida a ermida de S.Jorge, o estudo do terreno, as manobras usuais na época e os alcances úteis das armas mais importantes (arco = 220m; besta =150m) foi possível calcular a localização do dispositivo português.
Frederico Alcide de Oliveira, general, apresenta em Aljubarrota Dissecada, uma abordagem abrangente sobre a Batalha Real (1979).
José Alberto Loureiro dos Santos, general, faz o estudo da vertente estratégica em Abordagem estratégica da guerra da Independência (1986).
Helena Catarino, arqueóloga, chefiou em 1999, uma equipa de arqueólogos que a poente da ermida de S.Jorge pôs a descoberto dois conjuntos de covas de lobo (9) e o tramo de um fosso. Esta descoberta aponta a necessidade de prosseguir trabalhos de prospecção na zona, para maior esclarecimento da extensão e configuração das defesas acessórias.
João Gouveia Monteiro, historiador, dirigiu importante projecto pluridisciplinar, apresentado em Aljubarrota revisitada que veio trazer entendimento mais amplo da batalha Real (2001).
2. A guerra é Ciência ou Arte? Importância da informação:
É Ciência na medida que se baseia em saber experimentado e Arte pelo seu sucesso depender do local, momento e entrosamento adequado, possível com informação. É necessário ter conhecimento acerca de:
Inimigo (composição, efectivo, armamento, disciplina, instrução e personalidade dos comandantes. Camões referia que “fraco rei torna fraca gente forte”);
Terreno (pode dificultar/impedir a movimentação das forças e/ou condicionar a utilização de importantes sistemas de armas);
Tempo (pode dificultar/impedir o comando e controlo das tropas como a utilização de determinado equipamento). Nevoeiro, trovoada, chuva, etc.
Este conhecimento, genericamente designado por Elementos Essenciais de Informação continua a ser preocupação dos comandantes em operações.
Na eminência de um conflito os previsíveis contendores procuram “conhecer” o adversário, para neutralizar os pontos fortes e rentabilizar os fracos a seu favor.
D.Nuno Álvares Pereira ao ter conhecimento que a principal arma castelhana era a cavalaria procurou um terreno de confronto que dificultasse ou impedisse o emprego daquela força.
3. Estratégia e táctica
Clausewitz, em 1832, definiu estratégia como “combinação dos combates no terreno com vista à realização do objectivo último da guerra”.
O rei de Castela para conquistar Portugal escolheu Lisboa como alvo estratégico “pois tomada a capital o reino estaria conquistado”. A passagem por Santarém estava prevista pelas facilidades logísticas e de aproximação à capital, que proporcionava. Para tal comandou o ataque terrestre a Lisboa concertado com o seu cerco por forças navais.
Nuno Álvares sabendo que Lisboa dificilmente resistiria a novo cerco, defendia a necessidade de “atalhar o passo” ao invasor, em batalha decisiva, com o inimigo bem internado no reino (para facilitar a interrupção da sua extensão linha de comunicações) mas a distância razoável da capital para prevenir qualquer desaire. Procurou estar antecipadamente posicionado para controlar o avanço da força invasora que tendo entrado por Almeida, passado por Celorico da Beira, a 1 de Agosto, seguiu pela margem direita do Mondego.
Em Coimbra D. João de Castela ao ter conhecimento que os portugueses se encontravam em Abrantes, onde podiam atalhar as penetrantes de Ancião e Anços, resolveu avançar para Leiria e acampar em Azóia. No dia seguinte optou continuar por Soure-Pombal levando os portugueses a deslocarem-se para Porto de Mós que permitia barrar os itinerários previsíveis (Santarém; Lisboa).
Clausewitz definiu táctica como a “condução dos ataques no terreno”. D. Nuno acertadamente escolheu um local, no caminho do invasor, com terreno muito forte, para facilitar o desempenho das forças portuguesas e simultaneamente dificultar o ataque catelhano.
4. Algumas práticas guerreiras medievais.
As hostes medievais eram formadas para campanhas, quase sempre de curta duração, dependendo a sua constituição da missão a cumprir.
Este preceito continua actual, designado-se por task force.
O recrutamento podia ser nacional ou regional com convocação ad hoc.
Os exércitos permanentes apareceram em finais do séc. XV.
Em Portugal a hoste real era formada por 8 parcelas, correspondentes a estratos sociais, com elevado grau de autonomia:
Guarda do rei: composta por família cortesã da maior confiança do rei, com capacidade de alguma intervenção militar (100)
Nobreza do reino: matriz feudo-vassálica mudou para feudo-renda. S-XV.
Ordens militares: Com T. Alcanizes recebem missão de vigiar/defender a fronteira, ficando com posse, controlo e manutenção das princ. Fortalezas.
Forneciam e mantinham equipamentos pesados (arneses) (1500).
No período 1350-1450 existiam em Portugal 173 castelos
Aquantiados: As suas posses obrigavam o uso de determinado armamento e cavalo que tinham de apresentar em alardos. (caudel) (10.000)
Besteiros do conto: mesteirais (anadel) (5.000)
Besteiros a cavalo: equiparados a vassalos do rei. (500)
Mercenários: baixa nobreza. Profissionais da guerra. Mal vistos p/Igreja
Homiziados: criminosos fugidos à justiça. (Diminuir/anular a pena)
A hoste régia em movimento procurava salvaguardar três objectivos:
Garantir coesão e disciplina da força pela cadeia de comando para dispor de segurança eficiente e reacção rápida quando atacada.
O rei detinha o comando nominal mas podia delegar o comando efectivo em elementos de confiança com reconhecida capacidade.
Até 1382 o mais importante seria o alferes-mor, escolhido entre os nobres mais valorosos para ser respeitado e garantir lealdade e prudência.
Competia-lhe, em nome do rei, exercer justiça e transportar a bandeira do monarca, função de enorme importância que servia para transmitir ordens reais, devendo por isso ser guardada e amparada por todos. Derrubada em combate significava derrota e desbarato da hoste, o que se verificou na batalha real.
A partir de 1382, (D.Fernando) foi criado o cargo de Condestável a quem competia em campanha, conforme as Ordenações Afonsinas, entre outras, as funções de:
- Garantir a execução diária do decidido em conselho real na noite anterior;
- Verificar o comando, organização e localização dos besteiros e homens de pé da hoste de modo a serem utilizados com rapidez;
- Comandar a vanguarda da hoste;
- Coordenar a acção dos batedores de terreno ou “corredores”, almogávares (gente rude forte e veloz) e almocádens, durante as deslocações da hoste.
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Estes homens destinam-se a descobrir terra e constituíram o serviço de informação ou tomar língua.
- Chia Lin, 3.000 anos AC, referia que “exército sem agentes secretos era como homem sem olhos e sem ouvidos”.
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Garantir a guarda e segurança interna do arraial;
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Controlar o número e tipo de guerreiros na hoste.
A boa organização da coluna dependia de eficiente sistema de comunicação interna (estafetas/ordenanças, em faixa laterais), trombetas, tambores e bandeiras.
Evitar ataques de surpresa.
O adail pelo conhecimento do terreno seguia na vanguarda escolhendo os itinerários mais adequados e seguros. A hoste régia deslocava-se em coluna extensa, por razões de segurança e qualidade dos percursos medievais, cuja largura oscilava entre 3 a 5 m.
A hoste castelhana fazia etapas diárias de 20 Km, descansando um dia em cada três. Devido ao tamanho marchava em dois escalões, em “marcha de papagaio”, deslocando-se o dianteiro depois de alcançado pelo traseiro. O 1º escalão correspondia ao exército de campanha e o 2º à escolta do trem geral e forças destinadas a ocupação territorial.
Ayala refere 2 marechais castelhanos.
Quando o encontro com o In era improvável, utilizava-se a “marcha itinerária”, em que a comodidade se impunha à segurança. Os combatentes apeados iam na testa da coluna por causa do pó levantado por cavalos e carroças. Mais atrás, a razoável distância, deslocava-se o núcleo duro da hoste ainda ordenado de modo provisório.
Quando o encontro com o In era provável, a “marcha de aproximação” dava primazia à segurança com uma disposição semelhante à adoptada em combate. A cavalaria marchava na testa da coluna (flecha) seguida da vanguarda a alas. A reguarda garantia a segurança na rectaguarda.
A coluna de marcha castelhana deslocava-se vagarosamente em 2 escalões:
- O 1º com 23.000 homens (6.000 nc), tinha uma profundidade de 32.000 m e um tempo de escoamento de 05h15.
- O 2º com 18.600 (5.000 nc), estendia-se por 15.600m com um tempo de escoamento igual ao 1º escalão.
Concluímos que o efectivo total era 42.000 homens (11.000 nc) com uma profundidade 47.600m, não contando com o intervalo inter escalões, e um escoamento de 10h30.
Estes dados ajudam a entender o desenrolar e desfecho da batalha.
A solução diária das necessidades de alojamento alimentação, transporte.
Características do combate medieval
Na primeira metade do séc. XV os meios defensivos (robustas muralhas de fortalezas e cidades) tinham clara vantagem sobre os ofensivos que não dispunham de engenhos eficazes para as derrubar.
A opinião do medievalista Contamine era a estratégia militar medieval estava subordinada a dois princípios básicos:
Temor da batalha campal (arriscava tudo em pouco tempo);
Reflexo obidicional (tendência de fuga para a protecção das muralhas);
Por sua vez o historiador Verbruggen garantia que “o castelo era o melhor amigo do governante medieval”.
O confronto generalizado e decisivo (batalha campal) era prudentemente evitado. O ideal era subjugar o inimigo pela fome, doença, saturação e guerra guerreada (guerra de guerrilhas).
A campanha bélica realiza-se normalmente em meses com bom tempo.
Entrincheiramento de um estacionamento
Quando se previa ficar uma noite em descampado fazia-se à volta do local uma escavação reforçada com paliçadas. Se a terra mal ligada cavava-se sem grande rigor uma vala de 5 pés de largura por 3 de fundo. Depois com a terra retirada levantava-se, sobre o bordo interior, um muro com a altura de 3 pés.
5. Comparação entre oponentes (A.Comando, Efectivos, Armamento)
A.Comando
A hoste invasora era comandada pelo rei de Castela de carácter indeciso e volúvel, agravado por na altura estar doente com malária. Tinha falta de chefes experientes, actualizados e competentes, que justifica a falta de motivação e disciplina, agudizada por mentalização deficiente que julgava bastante o seu tamanho para alcançar vitória fácil. A situação piorava por não ser homogénea, estar enfraquecida pelo despeito castelhano da atenção real dada a franceses e não saberem aplicar o princípio da massa.
O comando português constituído pelo Mestre de Avis e D.Nuno A. Pereira, de relação fraterna, por ambos serem filhos naturais, com análoga formação religiosa e aprendido com os nobres ingleses que frequentavam a corte desde D.Fernando.
D.Nuno, místico e arrebatado, era um líder particularmente dotado para comandar homens em campanha. Chefe exemplar, competente, organizado e exigente, fazia-se obedecer pelo exemplo, sabendo adaptar com mestria a teoria à prática. A hoste portuguesa era consequentemente disciplinada, bem mentalizada, ligeira e oportuna no cumprimento de ordens.
Efectivos e Dispositivos
Froissart estimou o efectivo da hoste portuguesa em menos de 10.000 homens e Fernão Lopes em 6.500.
Se recordarmos que em 1382, D. Fernando tinha reunido cerca de 12.000 combatentes, sendo 2.000 ingleses, podemos concluir que em situação estabilizada Portugal teria capacidade de mobilizar cerca de 11.000.
A situação, com a nobreza dividida e cerca de 4.000 homens a guarnecer as praças afectas a Castela, já seria difícil reunir 6.500 homens.
Para fazer face à hoste castelhana, vinda de sul, as forças portuguesas foram instalaram-se a 1250 m a sul, num local abraçado pelas ribeiras da Calvaria a norte, de Madeiros, a oeste, e dos Vales a este, que permitia colocar o máximo das forças na frente do invasor.
O dispositivo português dispôs-se do seguinte modo:
Na frente a Vanguarda, sob o comando de D.Nuno Álvares Pereira, era composta por 600 lanças dispostas em 3 filas, reforçada com 50 peões num total de 650 homens.
Nos extremos situavam-se duas alas, com a ponta exterior avançada em relação à vanguarda.
Ala dos Namorados, a nascente, comandada pelos Vasconcelos (Mem Rodrigues e Rui Mendes) com 200 lanças, 200 besteiros e 650 peões, num total de 1100 combatentes;
A outra ala, a poente, comandada por Antão Vasques e João de Montferrat era composta por 200 lanças (100 inglesas), 100 arqueiros, 100 besteiros e 750 peões num total de 1150;
Atrás, distante 220m, na Reguarda em reserva, El Rey comandava 700 lanças dispostas em duas fileira reforçadas com uma de peões. Havia ainda uma segurança lateral separada, como duas guardas de flanco, situadas nas orlas do planalto (crista militar). Cada uma delas era composta por uma ilha de lanças e besteiros, alternados, “forrados” por duas linhas de peões.
Mais atrás, a 150 m a carriagem desatrelada servia de barricada a duas filas de peões e besteiros que a defendiam de cavaleiros inimigos.
Sandoval contabilizou o efectivo da hoste castelhana em 44.000, sendo 32.000 combatentes. Fernão Lopes calculou 30.000 para mais.
Os castelhanos a cerca de 800 m do local onde os portugueses estavam instalados, próximo de Carqueijal, começaram a ordenar-se em dois grandes ases.
A primeira linha, desdobrada em dois escalões, tinha uma frente de cerca de 750 m ( o máximo permitido pelo terreno) e dispunha de 1.600 lanças. As alas com o efectivo de 700 lanças, cada uma, eram comandadas pelos Mestres de Alcântara e de Calatrava.
Uma segunda "batalha" em reserva, a 150m à retaguarda, de extensão maior que a vanguarda era composta por 3.000 homens em 3 linhas de 2 fileiras.
Após a chegada da testa do trem foram colocados em posição os 16 trons, 100 m à frente da primeira linha, com intervalos de 20 m. pouco depois estavam em condições de fazer fogo (18HI5).
Armamento
Os portugueses estavam deficientemente armados, dispondo os cavaleiros de cotas de malha, escudo, lança e espada. Os homens de pé, diversamente armados, compreendiam besteiros (besta, capacete, espada) e peonagem munida com armas de ocasião (chuço, machado, dardo ou funda). Os ingleses estavam devidamente armados e equipados.
A hoste castelhana de efectivo muito superior à portuguesa estava melhor equipada. Dispunha de material tecnicamente avançado como as bombardas ou trons (comprimento de 97 cm; diâmetro exterior 37 cm; espessura/ tubo 11,5 cm; calibre 14 cm; peso 750 kg). Estas armas eram pirobalísticas, utilizavam os gases da combustão da pólvora para lançar uma bola de pedra ou ferro de 20 arráteis (9,18kg) a cerca de 1000 m.
Os cavaleiros estavam protegidos por armaduras e elmos de chapa.
6. Participação inglesa
O efectivo da força inglesa na batalha Real varia conforme o relator da peleja: Fernão Lopes e Froissard referem 200, elevando este para 500.
A crónica do anónimo monge de Westminster afirma categoricamente que D. João de Portugal foi auxiliado na batalha por cerca de 700 ingleses. Contudo não existem documentos na chancelaria inglesa que confirmem este número. A carta particular do cónego de Lisboa, Gonçalo Domingues, ao abade de Alcobaça, João de Ornelas, a 3 de Abril de 1385, refere o desembarque de combatentes ingleses em Lisboa (200 homens de armas e 200 arqueiros), Setúbal (45 h.a. e 45 arqueiros) e Porto (150 h.a./arqueiros) contrariando o número referido por Fernão Lopes.
Considerando que:
- O efectivo de 700 ingleses traria dificuldades de comando que exemplo anterior prova terem necessidade de comando musculado, aceite se fosse inglês;
- A frente de um combatente ser de 0,90m e o intervalo entre fileiras 1,80m;
- O campo onde se desenrolou a contenda, planalto rodeado por declives pronunciados de 20 m, com a vanguarda portuguesa encaixada entre duas linhas de água distanciadas no ponto mais próximo cerca de 350m, aparentemente não comportava tantos combatentes;
Atrevo-me a questionar a oportunidade da afirmação inglesa.
Dois dos melhores cronistas monásticos de Inglaterra ao evidenciar a vitoria manifestamente portuguesa e o comando também português parecem confirmar a razoabilidade desta dúvida.
7. Obstáculos e Baixas
A hoste portuguesa ao chegar a posição com a frente virada a sul deu inicio aos trabalhos de "organização de terreno" considerados necessários.
O desenvolvimento da peleja foi fortemente condicionado pelos obstáculos naturais existentes na área (ribeiras do Calvário, de Madeiros, da Mata e de uma linha de água transversal, na zona frontal, onde segundo Froissart “se travou o melhor da peleja ".
Estes obstáculos foram magistralmente complementados com outros artificiais (fossos laterais e frontal destinados a criar o efeito de funil, valas, covas de lobo e abatizes) o que leva a supor que a organização de defesa desta posição teria sido maduramente pensada. Os obstáculos são construídos dentro do alcance das armas do defensor e têm a finalidade de canalizar e/ou demorar o deslocamento do atacante para permitir o maior número de baixas e impedir e/ou dificultar que este faça a melhor abordagem ao objectivo que pretende conquistar. Actualmente esta função é desempenhada por minas (anti pessoal e anti carro).
Os cronistas são unanimes em reconhecer a desproporção das baixas entre os contendores. O resgate de prisioneiros era corrente pois rendia bons proventos individuais. No entanto esta prática não foi seguida na batalha Real devido à desproporção das forças em presença que não garantiam a retenção de castelhanos, que eram perigo grave por poderem constituir força recuperável e ainda por serem incentivo a novos ataques. Froissart precisa que do lado castelhano pereceram no campo de batalha 4.000, após a luta 5.500 (por acção de populares e milícias do abade de Alcobaça na ponte da Chiqueda) e aprisionados 6.500.
Só números desta ordem justificam a decisão de D. Juan de Castela em respeitar luto nacional durante dois anos.
As baixas portuguesas foram entre 650/1.000, incluindo os 30 desertores abatidos pelo pisotear da cavalaria castelhana.
8. Descrição da batalha Real
D. Fernando morreu a 22 de Outubro de 1383 sem deixar descendência masculina. 0 tratado de Salvaterra de Magos celebrado poucos meses antes estipulava que a coroa portuguesa deveria passar para sua filha, a infanta D. Beatriz, casada com o rei de Castela. Porém não aconteceu assim. 0 poder foi confiado, por imposição do testamento real, à rainha viúva D. Leonor Teles, impopular devido a comportamento intolerável. A situação não agradou ao rei de Castela que reuniu forças para fazer valer pela força os direitos de sua mulher ao trono de Portugal.
O povo de Lisboa ao saber da decisão organiza-se em movimento revolucionário, desencadeado a 6 de Dezembro com a morte do morte do Conde Andeiro pelo Mestre de Avis.
O rei de Castela aproveita o pretexto e intensifica pela força a defesa dos direitos de sua mulher. Seguiu-se o cerco a Lisboa, que durante meses pôs à prova a coragem e determinação do povo anónimo, levando os sitiantes a retirar e regressar a Castela.
Entretanto nas cortes de Coimbra o mestre de Avis é aclamado D. João I de Portugal em consequência da participação na defesa da independência do reino. A aclamação, considerada ofensiva pelo rei de Castela, levou-o a invadir Portugal pelas Beiras.
D. João I, por alvitre de D. Nuno, decide "barrar o passo" ao invasor que se deslocava de Leiria para ir cercar Lisboa. Na madrugada de 14 de Agosto de 1385, após reconhecimento do terreno feito na véspera, a força portuguesa ocupou a posição cuidadosamente escolhida, que facilitava a defesa a portugueses enquanto dificultava o ataque a castelhanos.
Virados a norte, com o sol pelas costas, aproveitando ao máximo o terreno escarpado esperaram com animo o invasor. Os cerca de 6.500 portugueses, quase todos armados de lanças, prepararam-se corajosamente para afrontar os mais de trinta mil antagonistas poderosamente armados. 0 confronto desigual, era visível no contraste entre a minguada e mal armada hoste portuguesa e o poderoso e bem armado exército invasor. Femão Lopes em linguagem colorida compara as duas forças como "0 lume de huua pobre estrela amte a claridade da lua em, seus perfeitos dias ".
O sol reflectindo-se nas ricas e numerosas armaduras castelhanas parecia aumentar o seu número e poder, provocando espanto e temor a quem via. Cerca das 12 horas as forças avistaram-se. Devido à evidente dificuldade no ataque a posição portuguesa, agravada por o sol estar de frente, o rei de Castela ordenou o envolvimento, pelo lado do mar, da posição ocupada por portugueses na procura de terreno mais favorável ao seu desígnio.
D. Nuno com forças disciplinadas, ágeis e bem comandadas, dando conta desta decisão, decide inverter ordeiramente o dispositivo e deslocar a sua força para um local 2km a sul de modo a poder receber o adversário.
A decisão é oportuna mas arriscada, por o In estar próximo e o terreno utilizável ser acanhado, mas demonstra enorme coragem, moral e física, invulgar disciplina, elevada capacidade de comando e superior saber táctico.
A hoste castelhana entretanto continuava o deslocamento até Chão da Feira, local amplo que permitia a rotação do dispositivo para atacar os portugueses pelo sul.
O aproximar da noite obrigava urgência. Cerca das 19H00 após dispararem os trons os Castelhanos atacaram.
O embate, brutal e medonho, conseguiu romper a vanguarda portuguesa.
As forças portuguesas numa demonstração invulgar de vontade, coragem e disciplina, aproveitando uma breve pausa no ataque, conseguem fechar a brecha por onde tinha entrado o inimigo e dizimar as forças entradas no dispositivo.
A bandeira castelhana ao ser derrubada causou enorme perturbação nos castelhanos levando-os a retirar, perseguidos de perto pela cavalaria portuguesa, até junto da tenda do rei de Castela.
A vontade de vencer dos portugueses era tão grande que provocou o pânico na hoste adversária, obrigando-a a retirada e fuga desordenada que confundiu e desmoralizou a força que ainda não tinha entrado em combate.
O poderoso exército castelhano abandonou no campo de batalha numerosos cativos e enorme quantidade de despojos. A batalha decidira-se em cerca de uma hora.
9. Algumas reflexões
Este acontecimento fez historia e enformou destinos.
Sem ele não existiria a comunidade de língua portuguesa espalhada pelo mundo pois estaríamos reduzidos a um cantinho distante na Europa;
A importância deste evento é pretexto de meditação sobre o nosso passado colectivo na perspectiva de retirar lições que possam servir no momento actual e em futuro próximo;
É um facto que sem patrioteirismo nos ensina determinação, fé e patriotismo. Exemplifica que face a dificuldades somos capazes, todos unidos em tomo da mesma vontade, realizar o objectivo a que nos propusermos.
É momento de questionar se está tudo esclarecido acerca da Batalha Real.
Julgamos que não pois subsistem ainda algumas duvidas:
- A localização das Alas portuguesas seria a que foi referida? Alguns estudiosos parecem ter duvidas pois no final do ataque o disparo das setas de uma ala poderia ferir combatentes da outra;
- Existem mais organizações de terreno? Quais? Quantas? Onde? As covas de lobo foram cavadas pela hoste portuguesa ou já existiam no local, feitas com outra finalidade?
Existem historiadores com opiniões diferentes.
- O ataque da hoste castelhana foi feito pela cavalaria "a cavalo” ou apeada?
Existem historiadores com opiniões diferentes.
Estas dúvidas e outras são indicação que será necessário continuar as pesquisas e estudos.
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