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O
SIGNIFICADO PERENE DA RESTAURAÇÃO
Conferência proferida na SHIP
em 30 de Novembro de 1981
pelo Embaixador José Calvet
de Magalhães
Quando observamos um
mapa da Europa não podemos deixar
de nos impressionar pela grande unidade
geográfica da península
que os romanos chamavam Hispânica
e nós preferimos chamar Ibéria.
E ocorre-nos perguntar
imediatamente como se explica a independência
de Portugal, face a todo o resto da
península, politicamente unificada,
mau grado as diferenças acentuadas
de cultura, tradições
históricas e personalida-de colectiva
das suas partes componentes.
É
esta uma pergunta que há cerca
de um século e meio já
foi feita, entre outros, por Alexandre
Herculano, que na sua prosa vigorosa
e solene escreveu: "Quem, examinando
uma carta topográfica da Península
espanhola, vê esta faixa de terra
chamada Portugal, estreitada entre o
oceano e o vulto enorme da Espanha,
sem divisões nascidas da natureza
do solo e fundadas na geografia física,
que a separem naturalmente dela, e quando
depois disto sabe que por sete séculos,
com a curta interrupção
de sessenta anos, os habitadores deste
cantinho do mundo conservaram intacta
a sua independência e individualidade
nacional, prevê desde logo nesses
homens, que assim souberam conservar-se
livres d'estranho jugo, grandes virtudes
e generoso esforço, e na organização
social do país uma extraordinária
robustez e uma harmonia notável
com as suas necessidades e índole;
porque as instituições
e costumes de qualquer povo são
a sua fisiologia, pela qual se lhe explica
principalmente o curto ou o dilatado
da vida. A curiosidade então
volta-se para a primeira infância
desse povo, para a época em que
disse a si mesmo: Eu existo.
Na disposição daqueles
tenros anos devem-se-Ihe achar já
os anúncios do vigor da juventude
e da idade viril".
Estas palavras do grande
historiador e patriota, além
de nos indicarem já o caminho
que devemos seguir para respondermos
à pergunta que formulámos,
explicam bem claramente o sentido da
notável obra que ele empreendeu
sobre a história dos primeiros
tempos de Portugal. Nela procurou, com
efeito, explicar as razões da
independência portuguesa que se
resumiam, no fundo, a um acto de vontade
política.
Apesar da estatura mental
e do cabedal científico de Herculano,
as suas conclusões nem sempre
foram pacificamente aceites pelos intelectuais
portugueses e na preocupação
vã da originalidade várias
foram as teses que surgiram para explicar
em definitivo a misteriosa autonomia
de Portugal. Teses geográficas,
antropológicas, psicosociais,
económicas, etc.. Mas nenhuma
destas teses quando examinadas de perto,
uma a uma, e confrontadas com os factos
da vida nacional, velhos de oito séculos
e meio, conseguem, quanto a nós,
explicar, só por si, o fenómeno
da independência nacional.
Portugal não se
pode explicar, com efeito, por um simples
acidente geográfico, por mais
engenhosas construções
que se façam com base na análise
minuciosa de fenómenos orográficos
ou climatéricos. A sua independência
no quadro hispânico também
se não pode explicar com fundamentos
étnicos, dada a grande interpenetração
racial das diversas regiões ibéricas.
A índole portuguesa pode, é
certo, distinguir-se marcadamente da
índole castelhana, mas o mesmo
acontece com a índole galega,
basca, catalã e andaluzia. Quanto
aos factores económicos eles
são tão débeis
que só preconceitos ideológicos
que antepõem teorias a factos
podem justificar que tenham jamais sido
invocados para fundamentar a independência
portuguesa.
Resta-nos, pois, aquilo
que Herculano afirmou, sem hesitação,
e que foi aceite, entre outros, por
Oliveira Martins e Damião Peres:
"Somos independentes porque
o queremos ser: eis a razão
absoluta, cabal, incontestável,
da nossa individualidade nacional. E
se essa não bastasse, aí
estão escritos com sangue, desde
Valdevez até Montes Claros, por
toda esta nobre e livre terra de Portugal,
os títulos da nossa alforria.
Com subtilizar ou torcer a história
não é que se defende a
pátria: a sua defensão
está em saberem seus filhos pelejar
por ela, quando o soldado estrangeiro
ousar acometer a terra que nos herdaram
nossos pais, e onde eles morreram livres,
como nós havemos de morrer"
.
Cremos, pois, com Herculano,
que a independência de Portugal
se deve a um acto de vontade política,
que a princípio pode ter sido
apenas de um grupo que soube interpretar
os anseios de um vasto núcleo
de população com tradições
próprias, para se tornar depois
no acto de vontade colectiva afirmado
em ocasiões decisivas para a
formação política
do Estado português. Essa vontade
política de independência,
que já se denota nos homens que
rodeavam o conde D. Henrique e D. Tereza,
tornou-se mais clara e mais imperiosa
entre os companheiros de Afonso Henriques
que, com o seu valor militar soube consubstanciar
o ideal de uma pátria livre frente
aos castelhanos. E vemos essa vontade
colectiva manifestar-se com extraordinária
pujança durante a crise dinástica
que se seguiu à morte de D. Fernando
e que teve a sua máxima afirmação
nos campos de Aljubarrota.
É nesta óptica
que julgamos se deve considerar o período
de sessenta anos de domínio espanhol
e o período da Restauração
iniciado em 1 de Dezembro de 1640. Ambos
os períodos constituem dois testemunhos
irrefutáveis da vontade colectiva
do povo português de preservar
a sua identidade e a sua independência
política.
Sessenta anos de domínio
por uma das maiores potências
políticas jamais vista, cuja
maior parte foi caracterizado por um
esforço claro de absorção
e de obliteração da individualidade
nacional, seria um período mais
do que suficiente para conseguir integrar
na poderosa Espanha dos séculos
XVI e XVII, um povo, que além
de pouco numeroso era tão vizinho,
em tão variados aspectos, dos
outros povos hispânicos. Se não
existisse, de facto, uma forte vontade
colectiva de independência em
todas as camadas da sociedade portuguesa,
esse período de sessenta anos
de constante e efectivo domínio
político chegaria certamente
para eliminar para sempre o vivo desejo
de independência nacional, se
tivermos em atenção o
estado de abatimento moral em que se
encontrava a Nação após
o desastre de Alcácer-Quibir.
O trono português
foi ocupado pelo cardeal-rei, idoso
e debilitado pela doença, que
após prolongada hesitação
sobre qual o herdeiro deveria indicar
para o suceder no trono, faleceu depois
de declarar em testamento que o seu
sucessor deveria ser aquele dos seus
sobrinhos que fosse legalmente reconhecido
como tal, o que era deixar a porta aberta
ao pretendente mais poderoso que era
Filipe II. No espírito do cardeal
avultou certamente a preocupação
de evitar que o país fosse objecto
de uma guerra de conquista em virtude
da determinação demonstrada
por Filipe II de se apoderar do trono
português. Apesar das condições
precárias do país e da
vasta acção corruptora
exercida pelo monarca espanhol, este
sentiu-se obrigado a jurar as leis portuguesas
e a garantir a sua autonomia, sendo
jurado como rei português. Os
seus sucessores esqueceram-se rapidamente
deste juramento, considerado como um
simples pro forma, e a obra de
espanholisação do país
em breve se iniciou atingindo o seu
auge no tempo de Filipe IV sob a inspiração
e firme condução do seu
poderoso ministro Conde-Duque de Olivares.
Apesar, porém,
de todas as tentativas espanholas de
absorção, o sentimento
colectivo de independência manteve-se
sempre vivo em todas as camadas da população
durante o período dos sessenta
anos de domínio político
espanhol. São inúmeros
os testemunhos desse facto e seria fastidioso
examiná-los todos aqui. Talvez
o mais significativo é o constituído
pela numerosa literatura autonomista
que durante toda essa época os
portugueses não cessaram de produzir
e na qual se exprimiram por vezes com
surpreendente audácia, salientando
não só a identidade nacional
mas até a superioridade de Portugal
sobre a Espanha e a própria ilegitimidade
do governo de Portugal pelos monarcas
espanhóis.
Hernani Cidade fez um
estudo profundo dessa literatura tão
expressiva e tão significativa.
Ele mostrou que para além da
enorme popularidade dos Lusíadas
nesse período, autores portugueses
publicaram nada menos que dez poemas
épicos de exaltação
patriótica e numerosas outras
obras no domínio da historiografia,
da poligrafia, da teologia e do direito,
todas referindo factos e sustentando
princípios sem defesa da independência
nacional.
De toda esta vasta literatura
seleccionaremos apenas três obras
por nos parecerem especialmente significativas.
Em 1609 o poeta Francisco
Rodrigues Lobo publica um poema intitulado
0 Condestabre de Portugal. 0
poema tem por objecto não apenas
celebrar a figura de Nun'Alvares, o
que já é deveras significativo,
mas igualmente exaltar a casa de Bragança
de que o Condestável foi o fundador.
Exaltar a casa de Bragança, cujo
chefe era tido entre os portugueses
como o legítimo herdeiro do trono
português, consistia numa afirmação
clara de nacionalismo político,
tanto mais de assinalar quando partia
da pena de um poeta de renome.
A segunda obra que merece
ser referida é a famosa Monarquia
Lusitana iniciada por Fr. Bernardo
de Brito e que apareceu a público
em 1597. Nesta obra o frade alcobacense
não se inibe de fantasiar, e
segundo alguns de falsificar, para estabelecer
primazias para Portugal e justificar
a sua individualidade política
desde tempos imemoriais. A Fr. Bernardo
de Brito sucedeu Fr. António
Brandão, tido como homem de só1ida
erudição e recta consciência,
que ao descrever os primeiros tempos
do reino português (nos volumes
publicados em 1630) põe em evidência
a sua total independência de Castela
a partir de Afonso Henriques. Mas a
Fr. António Brandão deve-se
ainda um facto de altíssimo significado.
Embora com algumas reservas, publica
as actas das supostas cortes de Lamego
nas quais se incluem cláusulas
que inequivocamente fundamentam os direitos
de D. Catarina de Bragança ao
trono de Portugal contra os supostos
direitos de Filipe II. Essas actas diziam,
com efeito: "Se o rei de Portugal
não tiver filho do sexo masculino
e tiver filha, será esta a rainha,
depois que o rei for morto, por este
modo: não receberá varão
a não ser de Portugal, nobre,
e esse tal não será chamado
rei... Vigore para sempre esta lei:
que a primeira filha do rei receberá
marido de Portugal para que não
caia o Reino em mãos estrangeiras,
e se casar com príncipe estrangeiro,
não seja rainha, pois não
queremos que jamais o nosso Reino saia
fora dos Portugueses...". Este
documento, hoje reconhecido como falso,
não o foi certamente pelos portugueses
da época em que foi divulgado.
Por outro lado, a falsidade do documento
tornava a sua divulgação
ainda mais significativa pois mostrava
bem até que ponto se procurava
ir na difusão da ideia de que
só um português se deveria
sentar no trono de Portugal. E isso
explica o que sério e consciencioso
Fr. António Brandão, apesar
das reservas que foi adiantado, não
resistiu à tentação
de publicar um documento de tanta importância
política e escaldante actualidade.
A terceira obra a que
desejamos aludir, publicada em 1631
com o título de Flores de
España, Excelencias de
Portugal, é da autoria de
Dr. António de Sousa de Macedo.
É uma obra da mocidade desta
importante figura da Restauração,
que foi nosso embaixador em Londres,
e isso explica em parte os exageros
que ela contém. Mas o que é
particularmente significativo é
que numa obra de um português
vinda a público em 1631 se faça
um paralelo entre a Espanha e Portugal
nos mais variados aspectos e se sustente
ser Portugal superior à Espanha.
Assim, segundo Sousa de Macedo, Portugal
teria sobre a Espanha vantagens de uma
melhor situação geográfica
e um melhor clima; uma maior beleza
e fertilidade dos seus campos; uma maior
antiguidade como reino: um escudo de
armas sagrado pelo milagre de Ourique
em confronto com um escudo de armas
de Espanha que nada tinha de sagrado;
uma mais antiga cultura que remontava
a Tubal, neto de Noé, conforme
ensinava Fr. Bernardo de Brito; o maior
épico de todos os tempos
Camões - superior a Homero e
a Virgílio; uma maior antiguidade
na fé religiosa; uma maior bravura
dos seus heróis, pois o próprio
Cid, o Campeador, herói máximo
da Espanha, foi vencido pelo português
D. Rodrigo Forjaz, não sendo
para esquecer que a avó do Cid
era portuguesa, etc., etc..
Por estes exemplos se
vê como pela literatura se mantinha
viva a fé na identidade e na
independência de Portugal durante
o domínio espanhol o que consistia,
sem dúvida, o principal obstáculo
à absorção do país
pela Espanha mau grado a política
nesse sentido levada a cabo sobretudo
pelo Conde-Duque de Olivares.
Chegados ao período
da Restauração, e dentro
sempre da mesma óptica da existência
de uma forte vontade colectiva de independência,
temos a distinguir dois momentos distintos:
a conjura que culminou com o golpe de
1 de Dezembro de 1640 e o período
que se seguiu de vinte e sete anos de
guerra com a Espanha.
Se considerarmos o episódio
do 1º. de Dezembro em si mesmo não
podemos deixar de reconhecer que ele
constitui um verdadeiro acto de heroismo
pois os riscos assumidos pelos conjurados
foram consideráveis e só
quase milagrosamente evitados. Segundo
o plano desses mesmos conjurados - que
eram quarenta e que com os seus apanaguiados
e servidores dispunham apenas de 120
a 150 homens para a sua execução
- seria necessário: 1º. dominar
a guarda alemã do paço
da Ribeira; 2º dominar em seguida a
guarda espanhola la no interior do paço;
3º. matar o Secretário Miguel
de Vasconcelos, cabeça do Governo;
4º. prender a Duquesa de Mantua governante
em nome do rei espanhol; 5º. tomar os
dois galeões espanhóis
ancorados no Tejo; e 6º. obter a rendição
da guarnição de 500 soldados
espanhóis que ocupavam o castelo
de S. Jorge. Se qualquer destes objectivos
falhasse o golpe poderia fracassar e
os conjurados seriam certamente aprisionados
e justiçados.
Não seria este
plano, por conseguinte, uma pura temeridade?
Os cronistas da época referem
um episódio que mostra bem em
que medida o plano dos conjurados era
considerado por alguns portugueses que
chegaram ao seu conhecimento, como totalmente
temerário e votado ao insucesso.
D. Antão de Almada um dos principais
chefes da conjura, nas vésperas
do dia 1 de Dezembro resolveu pôr
ao corrente de tudo um homem nobre que
era conhecido pelo seu ódio aos
espanhóis que muitas vezes manifestava
abertamente em público. Com surpresa
sua o referido nobre repudiou em termos
vivos o projecto dizendo: Onde estão
as forças necessárias
para executar um plano tão vasto?
De que forças dispõem
os conjurados para opor às forças
espanholas que se espalharão
por todo o país ao primeiro sinal
da revolta? Quantos são os nobres
que estão à testa do projecto?
E têm eles os meios necessários
para ocorrer aos custos de uma guerra?
E o tal fidalgo, que odiava os espanhóis,
concluía: Creio bem que em vez
de nos vingarem dos espanhóis
e libertarem o reino, os conjurados
contribuirão antes para a sua
ruína dando-lhes o pretexto que
há muito tempo procuram para
arruinar de vez Portugal!
A lembrança deste
episódio serve apenas para acentuar
o grau de temeridade que era atribuído
ao empreendimento por alguns que ansiavam
pela libertação do país.
Realizado o golpe com o feliz sucesso
conhecido, nem por isso deixou de perdurar
no espírito dos homens da época
que mais uma vez o milagre ajudara os
portugueses num momento difícil
da sua história. Com efeito,
no acto de aclamação de
D. João IV, em 15 de Dezembro
de 1640, o orador oficial, Dr. Francisco
de Andrade Leitão, aludiu expressamente
à intervenção divina
como responsável pela Restauração
da independência nacional e o
vereador da Câmara de Lisboa,
Francisco Rebelo Homem, falando em nome
do povo lisboeta declarou que a Restauração
fora mais divina que humana"
.
Poder-se-ia, pois, concluir
que tinham razão aqueles que
consideravam o plano dos conjurados
uma louca temeridade e que o seu sucesso
fora devido apenas a uma intervenção
providencial. Não é essa,
porém, a nossa convicção.
Os conjurados, ou pelo menos os seus
principais chefes, aceitaram aquilo
a que chamamos hoje um "risco calculado"
e o cálculo que eles fizeram
e que lhes incutiu particular coragem
foi a convicção em que
estavam de que existia no país
uma forte vontade colectiva de independência
e que, desmontada ou posta em causa,
por um golpe de audácia, a máquina
governativa dos espanhóis em
Lisboa, todo o país se levantaria
a apoiar os autores desse golpe. Ora
os factos demonstram, inequivocamente,
que este calculo dos conjurados fora
certo.
Com efeito, mal a notícia
dos acontecimentos de Lisboa em 1 de
Dezembro foi conhecida por todo o país,
logo os povos se manifestaram espontaneamente
aclamando o Duque de Bragança
como Rei de Portugal. Em 2 de Dezembro,
antes mesmo de receber qualquer comunicação
dos governadores designados, no dia
anterior, já Santarém
e Évora aclamavam D. João
IV e a independência nacional.
0 mesmo aconteceu em Coimbra no dia
4, em Lagos no dia 5 e no Porto no dia
6. E assim sucessivamente em todas as
terras do país.
Mas se outra manifestação
colectiva do desejo de autonomia política
fosse necessária para demonstrar
que o risco assumido pelos conjurados
fora de facto, bem calculado, temos
o testemunho dos vinte e sete anos de
guerra que se seguiram ao acto heróico
de 1 de Dezembro, em que os portugueses,
com fracos recursos militares e financeiros,
com ajudas externas nem sempre à
medida das necessidades e nem sempre
concedidas nas ocasiões mais
oportunas, conseguiram opor-se tenazmente
às poderosas forças espanholas
enviadas repetidas vezes para os subjugar.
Vinte e sete anos de luta contínua
em que os maiores sacrifícios
foram exigidos às populações
de todo o país: pesados tributos,
levas sucessivas de soldados e batalhas
sangrentas. Em 1662 o marquês
de Marialva, um dos mais notáveis
chefes militares das campanhas da Restauração,
apelava para Lisboa para que lhe enviassem
socorros pois os soldados andavam descalços,
sem receberem soldo de há muito,
e os doentes morriam nos hospitais por
falta de sustento. A situação
foi muitas vezes dramática e
só um esforço heróico
da tropa e o valor militar de homens
como o Conde de Vila Flor, o marquês
de Marialva e Pedro Jacques de Magalhães,
entre outros, tornaram possível
deter as forças espanholas e
alcançar finalmente, a vitória
de Montes Claros que quebrou a vontade
de conquista do adversário e
abriu o caminho da paz.
A par com o esforço
militar desenvolveu-se também,
neste período, uma importante
acção diplomática
que, apesar de inúmeras dificuldades
e alguns desaires, levou à obtenção
de valiosos apoios políticos
e militares que contribuíram
significativamente para apoiar o esforço
militar e preservar a independência
reconquistada. 0 resultado mais notável
foi, certamente, a renovação
da aliança luso-britânica
que levou ao casamento da Infanta D.
Catarina com Carlos II de Inglaterra
e empenhou este país na defesa
da nossa independência.
Aquela vontade política
de independência manifestada pelos
companheiros de Afonso Henriques em
Arco de Valdevez e que levou à
proclamação do reino de
Portugal foi, pois, amplamente confirmada
pela Restauração.
E isto após um
desastre militar de grandes proporções
em Alcácer-Quibir, em que a Dinastia
reinante em Portugal sossobrou e o país
caiu num abatimento moral sem precedentes
e após sessenta anos de domínio
estrangeiro por um Estado poderoso que
tentou realizar uma obra de absorção
e de extinção da individualidade
política portuguesa.
Que outras provas serão
necessárias para demonstrar que
a independência nacional reside
essencialmente na vontade colectiva
do povo português de existir como
um povo livre, um Estado independente
e senhor dos seus destinos?
Concluímos, pois,
dizendo que não existem razões
extrínsecas que possam só
por si justificar a independência
de Portugal e que esta se justifica
essencialmente por um fenómeno
intrínseco que é a vontade
colectiva de independência do
povo português. Quaisquer alterações
dos factores externos que possam condicionar,
por uma forma ou por outra, a nossa
autonomia, podem levar a alterações
na estrutura física ou política
do Estado português mas não
podem suprimir ou alterar o elemento
intrínseco e fundamental que
e a vontade colectiva de independência.
Por isso nos parecem de rejeitar todas
as concepções que fazem
depender a existência autónoma
de Portugal deste ou daquele factor
extrínseco que, por muita importância
que possa ter para a grandeza do Estado
português, não pode, em
caso algum, ditar ou mesmo provocar
a extinção da nossa independência.
Esta só depende, em absoluto,
da vontade política da nação
em preservar a sua autonomia e enquanto
essa vontade perdurar a independência
nacional continuará a ser uma
realidade.
É esse vivo sentimento
de independência que as gerações
de hoje, tendo-o herdado das gerações
de ontem e nomeadamente dos homens da
Restauração, devem não
só cultivar mas transmitir às
gerações futuras para
que Portugal continue a existir até
ao fim dos tempos.
Independência,
Revista de Cultura Lusíada
Ano II-II série, Junho-Dezembro,
1981, nº 3
[A
Janela da História]
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