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António Aleixo

Nome/Pseudónimo: ANTÓNIO ALEIXO / ANTÓNIO FERNANDES ALEIXO

Nasceu em: 1899-02-18, VILA REAL DE SANTO ANTÓNIO

Faleceu em: 1949-11-16, LOULÉ

Observações: Homem humilde e praticamente analfabeto, cantou em tom dolorido a sua vida amarga.

Obra Literária:
1969 - Este Livro Que Vos Deixo
1978 - Inéditos de António Aleixo


Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da Nação,
vendo jogo, guardo gado,
Só me falta ser ladrão!...

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Vejo a arte definida                               
na forma de escrever
o bem ou o mal que a vida
nos faz gozar ou sofrer

Traz-me num desassosego
o alívio à minha cruz
ando tal qual o morcego
ao deparar com a luz

Ó quem me dera, sózinho
e em quatro vezes somente
cantar ao mundo inteirinho
a mágoa de toda a gente

Desprezo o que eles preferem
porque quero ser sincero
e quero o que eles não querem
Por não quererem o que eu quero

Não sei o que de mim pensam
quando me vêem chorar
mas quero que se convençam
que a dor também faz cantar

Para que não te iludas
com amigos pensa nisto:
foi com um beijo que Judas
levou à Cruz Jesus Cristo

Negociando viveste
tens dinheiro e excelência
são coisas que recebeste
a troco da consciência

Sei que pareço um ladrão...
Mas há muitos que eu conheço
que sem parecer que o são
são aquilo que eu pareço!

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GLOSAS

Eu comecei com jeitinho
A compor o ramalhete;
Primeiro foi com azeite
E depois foi com cuspinho.
No começo era estreitinho,
Custava o pincel a entrar...
Começa a dona a gritar:
"Não me parta a tigelinha",
Mas que coisa engraçadinha,
Fui uma noite pintar...

Comecei devagarinho...
Quando fui ao outro mundo
Meti o pincel ao fundo
E parti o canequinho.
Até mesmo o pincelinho
Veio de lá todo pintado,
Eu já estava desmaiado,
Perdendo as cores do rosto;
Mas pintei com muito gosto
Com um caneco emprestado.

Vem a mãe toda zangada:
"Tem que pagar-me a vasilha...
No caneco da minha filha
Não pinta você mais nada...
...Lá isto, a moça deitada,
Sem poder levantar-se,
Com tanta tinta a pingar
No lugar da rachadela!..."
"Diga lá, que desculpe ela,
Eu pintei sem reparar!"...

Pra que vejam que sou pintor
E meu pincel nunca deixo;
Pra que saibam que o Aleixo
Não é somente cantor...
Também pinto qualquer flor
E faço qualquer bordado;
Mas aqui o ano passado,
Perdi, de pintar, o tino...
Fui pintar, fiz um menino,
Pintei e fiquei pintado.

 

QUADRAS

Sou humilde, sou modesto;
Mas, entre gente ilustrada,
Talvez me digam que eu presto,
Porque não presto p’ra nada.

Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.

Tu não tens valor nenhum,
Andas debaixo dos pés,
Até que apareça algum
Doutor que diga quem és.

À guerra não ligues meia,
Porque alguns grandes da terra,
Vendo a guerra em terra alheia,
Não querem que acabe a guerra.

Depois de tanta desordem,
Depois de tam dura prova,
Deve vir a nova ordem,
Se vier a ordem nova.

Eu não sei porque razão
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer.

Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.

Os novos que se envaidecem
P’lo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.

 

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