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Carlos Cunha


Senhor!
Por que é que a tua mão me mutilou,
Se não sei quem tu és nem quem eu sou?
Se não sei como obrigar
A minha carne, empréstimo de um deus,
A ajoelhar-se a teus pés e a confessar
Dramas que não são meus?
Se me assombra
A noite, que é uma esfinge preta e nua,
E vejo na minha sombra
Outra esfinge que recua?

Se tenho medo
De passar os umbrais do meu passado,
De prostituir o segredo
Desse palácio queimado?

Se é em vão
Que eu me congelo o sangue em cada veia,
Só para ouvir o coração
Parar na revelação
Da irrevelada Ideia?

Se em minha vida dormem tantas vidas?
Se eu sou o coveiro das minhas esperanças?
Se a minha alma é um cemitério de crianças
Com as cruzes caídas?

Se o coração em dobres augurais,
Anda a chamar por mais?

Se o barco em que subíamos o rio
Se abismou de vazio?

Se não te dói saber que na minha alma aflita
Há uma raíz que grita?

Se este rugido — Mais! — sempre mais forte,
Te cospe infâmias por teres feito a morte?

Se olhando os palcos que o teu nome inspira,
Mordo nos lábios esta voz — Mentira! —?

Se para ver o que não mais desvendo,
Peço ao louco a razão e não entendo?

Se sei a dor que só na dor se acalma,
Que sei de ti, de mim, que sei eu da alma?

Se não sei quem eu sou nem quem tu és,
Como cair-te aos pés? Como cair-te aos pés?

Senhor que eu vi em sonho e em pequenino!
Se enfim no mapa-mundi do destino
por onde, exausto, eu cego a procurar-te
(Anjo ou cordeiro ou pomba ou corpo teu),
Um dia abrir os olhos e encontrar-te,
— Senhor, diz-me: «Sou Eu!»

 

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