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António Leitão


PRAIA DE JULHO - ENTARDECER

Ainda o sol preguiçava pela areia;
a mansa brisa afagava a paz do dia;
deixara um resto de mar a maré cheia
onde as crianças molharam a alegria;

ainda a luz retouçava na lonjura
e o fim do mar acendia o fim do mundo;
as calmas ondas sonhavam uma planura
e, muito baixo, um céu liso, azul, sem fundo...

Entre o sossego do mar e o céu distante
invento e beijo o silêncio, terno amante.

[Poemas 1959-2001]

 

CARTA DE AMOR

Na minha Serra há pedras reclinadas
no regaço de um tempo enternecido,
incandescências mortas, serenadas,
de um magma revoltado e arrefecido:
são deuses, são demónios de quimera,
assim a luz e a sombra as descomponham!
Do místico silêncio desta Serra
chamei por ti, avô, e as pedras sonham.

Na minha Serra há águas vagabundas,
ligeiras, transparentes, rumorosas;
dos altos picos às leiras mais fundas
espertam fontes, regam vidas novas;
nem deuses nem demónios de quimera
com seus muros de morros as espantam!
Do músico silêncio desta Serra
chamei por ti, avô, e as águas cantam.

Na minha Serra as ervas têm viço
e o Sol lhes amacia o puro verde;
vestem montes e vales; no feitiço
de seu mimo o frescor nunca se perde.
Há deuses, há demónios de quimera
que, assim, com viva cor as alumiem?
Do límpido silêncio desta Serra
chamei por ti, avô, e as ervas riem.

Na minha Serra o céu e longe e perto,
campo de astros, de nuvens, de azul denso:
tem os mistérios virgens de um deserto
mar de miragens míticas suspenso.
Venham deuses, demónios de quimera,
há novas fantasias que desvairam!
Do fúlgido silêncio desta Serra
chamei por ti, avô, e as nuvens bailam.

A minha Serra, mãe de muitas vidas,
espírito de sóis, corpo de luas,
é pasto de ternuras pressentidas
num eco de horizontes e horas nuas...
Ó deuses, ó demónios de quimera,
olhai esta saudade que não finda!
Na alma do silêncio desta Serra
ouvi o meu avô e a serra é linda.

[Poemas 1959-2001]

 

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