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Alfredo Pimenta


Ó Mocidade, de culpas inocentes,
Mocidade que passas, transviada
Na esteira da bandeira hoje existente
Que simboliza a Pátria atraiçoada.

Ó Mocidade, ó Mocidade ardente,
Alto! faz alto! É outra a tua estrada...
Outro o rumo do límpido oriente
Pra onde deves ser encaminhada.

Ouve as minhas palavras! E que a glória
Dos feitos imortais da nossa História
Teus passos guie, em marcha triunfal!

A República exiu duma traição,
Pra sujeitar a indigna escravidão
A alma senhoril de Portugal!

 

NAVIO FEITICEIRO

Pelas tardes quando descem, sobre os longes do alto-mar
A tristeza e a saudade feitas névoas a descer.
Corro à praia desolada, na esperança de avistar
Um navio feiticeiro que me venha socorrer.

Olho os longes esfumados que se perdem pelo ar
Interrogo no horizonte qualquer nuvem a nascer.
Só as ondas inquietas, só as ondas a penar
Que não sabem pobres delas o que hão-de responder.

E prometo-me a mim próprio nunca mais voltar à praia
Pelas tardes a aguardar o navio feiticeiro
Que eu sonhara que viria para mim p.ra me salvar.

Mas se vejo que nas ondas lá por longe a luz desmaia
Corro à praia interrogando o mistério, o nevoeiro
À espera de um navio, que uma tarde, há-de chegar.

 

PARA QUÊ?

Revelar um segredo - para quê?
Para quê decifrar o enygma extranho
Que escondido em meos labios eu contenho,
Que só eu sei, e que ninguem mais vê?

Dizer o que a minha alma escuta e crê,
Este sonho que em flôr na alma tenho,
Sonho para onde vou, e donde venho,
dizel-o e revelal-o, - para quê?

E se o meo coração vive isolado,
Abandonado coração magoado,
Neste tumulto de um viver sem fé,

Que importa aos outros o que sonha e sente?
E se elle sonha mysteriozamente,
Decifrar-lhe o mysterio - para quê?

[O Livro das Chymeras, 1922]

 

SOBRE UM MOTE DA SENHORA INFANTA DONA MARIA DE PORTUGAL

Eu passo as horas e os dias
Contando os meos desenganos,
E entre noites de agonias,
Se me vâo mezes e annos!
E olhando as magoas da alma,
Comigo, constantemente,
Sem uns minutos de calma,
- Já não posso ser contente.

Em olhos côr de esperança,
Puz minha esperança outrora,
Sem lembrar que tudo cança,
Que ha noite depois da aurora.
E eu que nelles esperei,
Pondo nelles minha vida,
E em sua luz me tentei,
- Tenho a esperança perdida.

Outros soffrem como eu,
Mas isso não me acarinha,
Que o meo amor não é meo,
Nem a minha amada é minha!
Que me importa o mal alheio,
A desgraça que outrem sente,
Se por ser de males cheio,
- Ando perdido entre a gente?

E assim neste desespero,
Nesta amargura em que vou,
Nem já sei bem o que quero,
Nem já sei bem o que sou!
Captivo dos olhos d' Ella,
NElla presa a alma dorida
Pois que tive de perdel-a,
- Nem morro nem tenho vida!

[O Livro das Chymeras, 1922]

 

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