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António Sardinha


Eles o afirmam com aspecto grave,
- eles o afirmam com profundo voz.
Um coro imenso reboou pla nave:
-'O Rei é livre e livres somos nós!'

- 'O Rei é livre!' E o grito de Almacave
não foi somente o grito dos Avós.
Por mais que o tempo em nossas veias cave,
nunca desata esses antigos nós!

'O Rei é livre!' E com seu elmo erguido,
é Portugal tornado corpo e alma
na sucessão do tempo indefinido!

O sangue o diz! E o sangue não se engana!
Que ver o rei na sua força calma
é ver a Pátria com figura humana!

 

SONETO DA VISITAÇÃO

Vinde, adorai! Criados e parentes,
Tenho o presépio em nossa casa armado,
Vinde adorar o meu Menino amado,
Honrá-lo com carinhos, com presentes!

Muito quietinho, nas roupinhas quentes,
O infante dorme, dorme aconchegado.
É lindo, pois não é? O meu morgado?
Que tu, Senhor, em graça mo aviventes!

E, de joelhos, com um ar de boda,
Adora e pasma-se a assistência toda,
Como diante de um festivo altar.

“Que perfeição! Que enlevo de criança!”
— E pedem num louvor que não descansa
Que Deus nos dê saúde p’ra o criar!

 

INVOCAÇÃO

Ó Terra de Antre Tejo e Guadiana,
onde há contrabandistas e malteses,
ó Terra que és fronteira à castelhana
e a tens metido em ordem tantas vezes!

Terra das claras vilas com cegonhas
no alto dos mirantes sobre o imenso!
(Paisagens religiosas e tristonhas
aonde o rosmaninho faz de incenso…)

(Ruinas penduradas no Distante
com atitudes calmas de ermitério…).
- Ó Terra, em cujo chão febricitante
palpita um formidável cemitério!

Terra das fortalezas truculentas,
minha adiantada-mor de Portugal,
- ó Terra que o abasteces, que o sustentas,
que és um celeiro enorme, sem igual!

Ó Terra que da espada aventureira
tiraste ao vir das pazes a charrua!
(O arado quando chega a sementeira,
como ele empeça em tanta ossada nua!)

Terra de coração em brasa viva,
queimando no furor canicular!
Terra de quem a gente se cativa,
se a água das nascentes lhe provar!

Terra de natural dormente e langue,
onde padecem lobis-homens, bruxas…
- (Voz do Longínquo, ó tentação do Sangue,
não sei em que ânsias doidas me estrebuchas!)

Ó Terra estranha que a perder nos deitas
com endemoninhada beberagem!
Ó Terra da lavoira, das colheitas,
das feiras e arraiais, - da ciganagem!

Terra de San-João de Deus, ó Terra
onde a Rainha-Santa quis morrer!
- (À flor dos horizontes paira e erra
uma saudade líquida a escorrer…)

Terra de meus Avós, dos bons Maiores,
aonde a minha Árvore descansa!
Terra regada com os seus suores,
aonde eu vejo a sua semelhança!

A sua semelhança está comigo,
em mim a cada hora se renova,
ó Terra que me foste berço amigo,
ó Terra que serás a minha cova!

Postas as mãos, em oração ardente,
ó Terra de Crisfal e Bernardim,
Peço-te a bênção comovidamente
- que a tua bênção desça sobre mim!

 

A OLIVENÇA, A PERDIDA

Fiel ao sangue, nossa irmã germana,
chora Olivença as suas horas más
junto do rio que tornou atrás,
quando soou a trompa castelhana.

Ó Casa de Antre Tejo-e-Guadiana,
lembra-te dela que entre ferros jaz!
Não a dobrou a guerra nem a paz,
- fiel ao sangue, o sangue a ti a irmana!

E todo aquele em quem ainda viva
o ardor da Raça e a voz que nele anseia,
se for p'ra além da raia alguma vez,

é Olivença, nossa irmã cativa
lá onde com surpresa a gente alheia
oiça dizer adeus em português!

[Epopeia da Planície]

 

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