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António Tinoco


AGUARELA

Naquelas ruas por onde
a cidade mais se esconde
como que envolve os encantos
dos dias de romaria
das Senhoras da Agonia
que secam os nossos prantos.

E nas flores d’uma sacada
na roupa branca lavada
é que a alma se nos prende,
e num simples candeeiro
é a luz do mundo inteiro
que em nossa alma se acende.

Uma cidade sem tempo
pintada como um lamento
sobre o mar de uma janela
desabrochou em amores,
ficou guardada nas cores
A cantar numa aguarela.

 

A MULHER

A mulher é sem dúvida a criatura
aquática.
Ondeia nos cabelos,
cintila nos olhos,
Uma luz fantástica.
Fios de prata e gelo
em mares de escolhos.

Ela repete o movimento
mágico
que parte da nuca
e se desenvolve trágico
no ventre atento
ao ouvido que escuta.

Da mulher fica apenas a
esteira.
Nada num fluído
que não parece ser o ar,
cai lenta como poeira
que se desfaz no descuido
de subitamente amar.

 

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