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Miguel Torga
NATAL
Outro Natal.
Outra comprida noite
De consoada,
Fria,
Vazia,
Bonita só de ser imaginada.
Que fique dela, ao menos,
Mais um poema breve,
Recitado
Pela neve
A cair, ao de leve,
No telhado.
[Diário XII - S.
Martinho de Anta, 24/12/1975]
NATAL
Foi tudo tão pontual
Que fiquei maravilhado.
Caiu neve no telhado
E juntou-se o mesmo gado
No curral.
Nem as palhas da pobreza
Faltaram na manjedoira!
Palhas babadas da toira
Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.
Mas, afinal, o cenário
Não bastou.
Fiado no calendário,
O homem nem perguntou
Se Deus era necessário
E Deus não representou.
[Diário V - S.
Martinho de Anta, 25/12/1950]
LUTA
O que eu sonho!
A fé que ponho
Na imaginação!
Digo à razão
Que sim, que desvario
Nesta humana aventura,
E ergo mais a lança em desafio
E desço mais o elmo da loucura.
Nada conquisto, porque são
moinhos
Os gigantes que encontro nos caminhos
Das minhas digressões.
Mas combato,
Combato
E desbarato
As próprias ilusões.
[Diário XIII]
AFONSO DE ALBUQUERQUE
Quando esta escrevo a Vossa
Alteza
Estou com um soluço que é
sinal de morte.
Morro à vista de Goa, a fortaleza
Que deixo à Índia a defender-lhe
a sorte.
Morro de mal com todos que
servi,
Porque eu servi o rei e o povo todo.
Morro quase sem mancha, que não vi
Alma sem mancha à tona deste lodo.
De Oeste a Leste a Índia
fica vossa;
De Oeste a Leste o vento da traição
Sopra com força para que não
possa
O rei de Portugal tê-la na mão.
Em Deus e em mim o império
tem raízes
Que nem um furacão pode arrancar...
Em Deus e em mim, que temos cicatrizes
Da mesma lança que nos fez lutar.
Em mais alguém, Senhor,
em mais ninguém
O meu sonho cresceu e avassalou
A semente daninha que de além
A tua mão, Senhor, lhe semeou.
Por isso a Índia há
de acabar em fumo
Nesses doiros paços de Lisboa;
Por isso a pátria há de perder
o rumo
Das muralhas de Goa.
Por isso o Nilo há
de correr no Egipto
E Meca há de guardar o muçulmano
Corpo dum moiro que gerou meu grito
De Cristão Lusitano.
Por isso melhor é
que chegue a hora
E outra vida comece neste fim...
Do que fiz não cuido agora:
A Índia inteira falará por
mim.
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