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António Manuel Couto Viana

Natural de Viana do Castelo, foi por duas vezes Prémio Antero de Quental (1949 e 1959), Prémio Nacional de Poesia (1965) e Prémio Camilo Pessanha (1993). É dramaturgo, tradutor e autor de literatura infantil, contando dezenas de títulos publicados em diversas editoras, obra recentemente compilada e editada pela Imprensa Nacional, em dois tomos.


O SANTO

Não é Deus
E, entretanto,
Não é Homem...

Não é Deus,
Pois nasceu
Como nasce
O Homem
Natural:
- Sem véu
Providencial
E protector,
Longe dos Céus,
Face a face
Com a peste
Moral
E com a dor...

Não é Homem
Também,
Que as angústias
Incessantes,
O desencanto
Enganador,
A saudade
E, sobretudo,
O desamor
Da Humanidade,
Que em
Tão
Rudo

Quebranto
No coração
Do Homem
Transparece
E se contêm,

Como aos seus
Semelhantes
Não o consomem...
Não os conhece
Nem
Os tem...

Enquanto
Vive,
No declive
Desta descida
Sua subida
E desprendida
Vida
Exemplar,
Vive
Da prece
E para a prece;
No encanto
E para o encanto
De rezar...

Cria
Assim,
Dia a dia,
Num contínuo
Improviso,
- Em que a Alma, cega
Pela Luz que entrevê,
Renuncia,
E se entrega,
E se extasia,

Longe da humana
E profana
Refrega,
Do Pecado
Que cresce
Em tétrica
Maré

Cria
Assim
E constrói
Deslumbrado,
Supremo herói
Da Fé,
Num sorriso
De g1ória santa,
O seu destino
Divino;
O seu próprio
Paraíso
Sem
Fim...
Como quem
Planta
E rega
Um místico
Jardim.

Ambiente
Transcendente
De infinita
E bendita
Felicidade
Interior,
Onde, no anseio
Redentor
De que anda cheio,
Palpita

Enternecidamente
O amor
De toda a gente;

E, acima
Do amor
Do próximo,
Que o sublima
Entre os crentes
Ardentes
E os míseros
Ateus,
Bem superior
A todo o amor,
O Amor de Deus!

Eis o Santo:

- Num facho espiritual
De beatitudes,
À g1ória
Incorpórea
Se junta
A graça infinda,

Virtude entre
Virtudes,
Em que há
Tanto
De humano
Reconforto
Como de sobrenatural
Amanhecer. . .

Sente,
Pensa,
Vive ainda
Nessa claridade

Imensa,
Mas já
Fora
Do seu ser...

Vive em sonho
Todo o ano,
Sonho risonho
Pela ternura
Que a Alma invade,
Alegre e pura;
Mas está,
Entretanto
Na crença
Que liberta
Do prazer,
Sempre
Morto
Por morrer...

Agora
Certa
Pergunta
Se faz mister:

SÃO JOÃO DE DEUS

Não
Quis
Ser
Santo,
Foi-o:

Trouxe
A Alma
A esvoaçar,

Sem
Lar
Nem
Pátria,
Doce,
Calma,
Feliz...

No dever
De apartar
O trigo
E o joio;
De só viver

«Será
Santo
Quem quer?»

Por bem,
Para abrigo,
Amparo
E apoio
Dos
Que não
Têm,

Seu
Claro
E puro
Espírito
Sempre em
Graça,
Luz
Acesa
Num escuro
De breu,
Muito além
Desta

Matéria,
Baça
E molesta,
Resplandeceu
Mendigo,
Bom
Amigo
Da pobreza,
Casou-se
Com
A miséria:

Nessa
Mística,
Etérea
Boda,
Mal
Começa
A promessa
Nupcial,
Qual
Se fosse
Coluna
Em
Fogo
Da Fortuna,
Que a Fé
Ergueu;
E como
Quem
- Num assomo,
Num hino -–
Ao esplendor
Do Amor
Divino
Descerra
o véu...

Logo
Espalha
Sozinho,
Espalha...
Espalha...
Mão
Que não
Falha,

À última
Migalha,
Pelo caminho
Da Terra,
Toda
A riqueza
Do céu!

[S. João de Deus na Poesia Portuguesa]

 

CÂNTICO A S. JOÃO DE DEUS

Erga-se o mar até ao infinito.
Alongue-se o olhar translúcido e vibrante
E entre o salgado murmurar das ondas,
Solte o seu grito
E cante!
Que te bendiga a chuva nos beirais
E a calada tristeza das violetas.
Que te cantem as águias e os pardais,
E os versos de todos os poetas!
Louvem-te as velas brancas dos moinhos,
Abram-se estrelas de oiro num momento.
Du1cifique-se a agrura dos espinhos
E num cântico puro, alado e forte,
Que te bendiga o vento,
E te bendiga a morte!
Louve-te o sol em catedrais de luz
E a chaga aberta e rubra de mil brasas.
Cantem-te os braços rectos de uma cruz
E o bater fragilíssimo das asas.
Louve-te o olhar humano de Jesus.
E o pó errante e inútil dos caminhos.
Numa canção puríssima e divina
Cantem-te os anjos brancos de alabastros,
E numa voz suave e cristalina
Louvem-te ninhos
E te bendigam astros!
No seio escuro e fértil da montanha,
Louvem-te os rios e as fontes.
E numa oração sagrada e estranha,
Rezem-te os montes! ,
Cantem-te as algas verdes e os sargaços
Com os dedos e os braços
Das espumas
E humilde e sem alarde,
Que te bendiga a tarde
Na sua voz tristíssima de brumas.
Num silêncio astral,
Hostil e fundo,
Louve-te a noite calma
E num cântico ardente, ascensional,
Louvem-te o vento, o mar, a terra.. a vida, os céus,
Louve-te a minha própria alma.
- Louve-te o mundo,
Irmão João de Deus!

[S. João de Deus na Poesia Portuguesa]

 

O CAMINHO DE SÃO JOÃO DE DEUS

De Montemor, no plaino transtagano,
A Granada, - a de múrmuras saudades,
Há um caminho a florir em claridades,
Em rosas, virginais, de todo o ano:

Ele sorri (oh! que sorriso humano!)
A imagens, nuvens, fundas soledades,
Oliveiras, que sangram, às Trindades,
Ao silêncio, pairando, soberano...

É o caminho que João, quase de rastros,
Abriu, por matagais de cor sombria:
Luz e reluz... que bruxuleio de astros!

Fulgindo, enlaça, sob bênçãos, palmas,
Duas Pátrias, que o Pão da Eucaristia
Repartem entre si, trocando as almas!

[S. João de Deus na Poesia Portuguesa]

 

IDENTIDADE

O que diz Pátria mas não diz glória
Com um silêncio de cobardia,
E ardendo em chamas, chamou vitória,
Ao medo e à morte daquele dia

A esse eu quero negar-lhe a mão,
Negar-lhe o sangue da minha voz,
Que foi ferida pela traição
E teve o nome de todos nós

O que diz Pátria sem ter vergonha
E faz a guerra pela verdade
Que ama o futuro, constrói e sonha
Pão e poesia para a cidade

A esse eu quero chamar irmão
Sentir-lhe o ombro junto do meu
Ir a caminho de um coração
Que foi de todos e se perdeu!

[Obra Completa - INCM]

 

RESPOSTA A CAMÕES PARA SEMPRE

Nunca digas não mais, mesmo que a ferida
Te pareça mortal.
Mesmo que a gente surda e endurecida
Se chame Portugal.

Mesmo que o gosto da cobiça
Te roube o tecto e o chão
E nos pratos da balança da justiça
Pese mais a prisão do que o perdão.

Mesmo que a austera, apagada e vil tristeza
Seja mortalha de silêncio e frio
E só tenhas por rumo e por certeza
Um coração vazio.

Nunca digas não mais à pátria oculta:
Dela, és sonora e límpida garganta.
Exalta o espelho de ti próprio, exulta
E sempre e para sempre canta.

[Obra Completa - INCM]

 

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