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02/04/2007
NA PEUGADA DE SÃO FRANCISCO XAVIER

Após a sua eleição, a actual Direcção Central da SHIP deliberou marcar como objectivos para o triénio 2005-2007, no âmbito das visitas ao Estrangeiro, viagens a Marrocos, à Índia e ao Brasil. Depois de um memorável périplo pelas terras marroquinas mais salpicadas pelo sangue e glória de Portugal, foi a vez, em 2006, de nos deslocarmos à Índia, a pretexto das comemorações do V Centenário do nascimento do Santo luso-navarro, São Francisco Xavier. A viagem foi organizada à volta da necessidade de se estar em Goa nos dias 3 e 4 de Dezembro, respectivamente o dia do Santo evangelizador do Oriente e o das comemorações litúrgicas (dado ser dia 3 um Domingo). Assim, depois de uma longa e complicada chegada nocturna a Mumbaim, o grupo, com 41 pessoas, deslocou-se a Chaul, num extenuante desfilar de intermináveis quilómetros, até que o célebre Morro surgiu. Em Chaul, uma das jóias da coroa do nosso Estado da Índia, arribara São Francisco Xavier pelos menos duas vezes e aí se instalara, mormente na Cidade de Cima, uma larga população católica de portugueses e luso-descendentes que, mesmo depois da ocupação Maratha em 1739-40, continuaram a falar um íntimo dialecto português. O cansaço e os compromissos logísticos impediram uma melhor exploração da fortaleza da cidade velha, junto a Revdanda e do forte do Morro, de origem desconhecida (provavelmente Siddi como o forte da Lua) e engrandecido pela brilhante arquitectura militar portuguesa. O regresso à capital comercial da Índia, permitiu retemperar forças para no dia seguinte encarar uma nova estirada para Norte, em direcção a Baçaim. Na velha capital do Norte, ainda fidalgueira e imponente nas suas ruínas talhadas pela mão do Homem e da Natureza, pôde o grupo sonhar com o tilintar das espadas e o troar dos canhões de outrora, que o marulhar das águas deixa pressentir. Glória da nossa expansão, senhora de largos proventos e territórios (entre os quais Mumbaim ou Bombaim), Baçaim estendia o seu domínio de Diu a Chaul. Espectrais Igrejas erguem-se ainda para o Céu, resistindo às monções, ao criminoso abandono, indiferença e desleixo e à capciosa hinduanização do espaço (nos sites dedicados à história da Índia a cidade aparece como construída pelos Marathas). No interior da fortaleza, junto ao exterior da cidadela, o ashram do primeiro santo luso-indiano, São Gonçalo de Garcia, mártir de Nagazáqui, nascido no seio de uma família local, convertida directamente pela acção de São Francisco Xavier que em Baçaim pregara.

Retomada a pista, fechando cicatrizes de emoções, de novo o grupo se fez ao Norte, buscando Damão, sabendo que, pelo caminho e mais para o litoral jaziam, abandonados ao mais deletério olvido, fortes e aldeias argamassados com sangue, suor e lágrimas da nossa gente de antanho.

E eis-nos em Damão, entrando pela porta de Vaipi. Glória da Portugalidade, Damão recebeu-nos num abraço fraterno inolvidável, apresentado, em nome da comunidade de luso-descendentes, pelo professor Gabriel Guedes. Depois da visita ao triangular forte de São Jerónimo, o grupo atravessou o rio Damão para contactar com a população que de forma carinhosa e sentida nos abriu os braços. Na Sé, magnífico exemplar da arquitectura religiosa luso-indiana, o Rev. Padre Manuel Rodrigues celebrou connosco a Eucaristia, dedicando-a a todos aqueles que morreram por Damão português, especialmente pelo sub-chefe Aniceto do Rosário e pelo guarda António Fernandes, mortos no enclave de Dadrá, em 1954. Seguiu-se uma visita aos antigos Paços do Concelho onde a delegação da SHIP foi recebida pelo jovem Presidente da Câmara actual e pela sua vereação que nos dispensaram um agradável acolhimento.

De regresso a Mumbaim, e após fugaz passagem por Dadrá, Nagar-Aveli e Silvassa, sua próspera capital, todos levavam o saco das emoções mais recheado, pelo revisitar da História Pátria, pelo estranho sentimento de ter estado em casa a milhares de quilómetros de distância, pela simpatia e hospitalidade das gentes, etc.

No dia seguinte de novo em marcha, agora para Goa, motivo nuclear da viagem. Chegados a essa pérola do Oriente, por todo o lado se sentia a azáfama dos dias festivos, o bulício das gentes, a inquietação do chegar a tempo... Ainda no dia 2, foi possível visitar em Pangim, a Igreja da Imaculada Conceição, e as artérias que mais próximas lhe estão, nomeadamente, o bairro da Fontaínhas, onde ainda hoje habita uma grande comunidade de luso-descendentes. Aí jantámos, no restaurante do nosso amigo Vasco Silveira que nos permitiu locupletar com típicos petiscos goeses.

No dia seguinte, bem cedo, chegou a representação da SHIP ao terreiro da Basílica do Bom Jesus, onde serpenteava já uma imensa fila de milhares de pessoas que aguardavam a sua vez para se aproximarem do túmulo do venerado Santo. Logo que reconheciam a nossa condição nacional, de pronto nos cumprimentavam com o mesmo carinho que já havíamos experimentado em Damão. Por todo o lado se viam os símbolos nacionais portugueses; nas roupas, nas t-shirts da nossa selecção de futebol, em stickers autocolantes nos veículos, etc.

Mercê dos contactos pré-estabelecidos pela SHIP, atendendo à sua natureza, propósito e representatividade, foi o grupo distinguido com um simpático convite para testemunhar a sua veneração ao Santo, num circuito especialmente preparado para nós. Findo o reverente acto, fomos convidados a participar na Santa Eucaristia, numa missa campal, tendo o grupo sido colocado, por amabilíssima deferência das autoridades eclesiásticas, no lugar de maior destaque da Assembleia.

Após as cerimónias litúrgicas, foi possível visitar a Exposição permanente do Museu de Arqueologia de Goa, onde estão presentes, para além de inúmeras peças de arqueologia remontando ao período dos reis Kedambas, todos os governadores, Vice-reis e os últimos Presidentes da República e do Conselho de Ministros (ou primeiro-ministros), numa clara lição de democracia que a Índia nos dá. Seguiu-se a visita à Sé catedral, a maior igreja da Ásia e à Igreja de São Francisco. Da Igreja e Mosteiro de Santo Agostinho, cuja arruinada torre, espigava no horizonte, do convento de São Caetano ou de Santa Mónica, onde hoje se albergam as peças do Museu de Rachol, apenas o furtivo perfil foi possível vislumbrar furtivamente. Quem quis e pode, deslocando-se pelo emaranhado de gente feirante que atafulhava a Rua Direita, foi ver o Arco dos Vice-reis, símbolo de uma soberania de séculos.

Uma premente necessidade de descanso impôs-nos um relaxado almoço na praia de Utordá, entre coqueiros e mangais. Pelo caminho ficaram a passagem pela catedral gastronómica que é o Nostalgia, do Chef Fernando e da sua eficiente e portuguesíssima mulher, a Margarida Távora, na idílica Raia e a visita ao colonial solar dos Figueiredo, onde tivemos o grato prazer de ser hospitaleiramente recebido pela sua proprietária, a nossa amiga Senhora Dª Maria de Lourdes Albuquerque.

Na noite da despedida, tivemos o privilégio de, num ambiente de romântica saudade, assistir a um espectáculo de danças tradicionais de Goa, com demonstrações do celebrado mandó. No dia seguinte Cochim...

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