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04/05/2006
EXPOSIÇÃO "NAVIOS DA ARMADA PORTUGUESA QUE PARTICIPARAM NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL"
Do Comandante José Ferreira dos Santos
É prática corrente a maioria das Marinhas, mesmo as mais dotadas de meios, em períodos de crise e em casos de hostilidades declaradas, socorrerem-se de navios mercantes (de comércio, de pesca e até de recreio), para aumentarem os seus efectivos navais pois em tempo de guerra os navios militares nunca são demais.
Um exemplo disso é o facto de, durante a Segunda Guerra Mundial, a toda poderosa Royal Navy ter requisitado e artilhado, além de numerosos navios de comércio, o número impressionante de dois mil cento e noventa e cinco navios de pesca que foram utilizados, principalmente, como escoltadores costeiros, patrulhas anti-submarinos, draga-minas e também no serviço de redes de barragens.
É curioso lembrar que doze daqueles navios de pesca começaram por ser arrastões encomendados por armadores britânicos a estaleiros Portugueses, seis construídos de madeira, nos estaleiros Mónica, na zona de Aveiro, e seis construídos de aço, quatro no estaleiro da C.U.F., na Rocha do Conde de Óbidos e dois no Arsenal do Alfeite. Lançados à água em 1941-1942 integraram na Royal Navy a classe dos “naval trawlers” e foram todos doze rebaptizados com nomes iniciados por P.. Assim os arrastões “PORTAFERRY” e “PORTISHAM”, construídos no Arsenal do Alfeite, passaram a ser o H.M.S “PROBE” e o H.M.S. “PROCTOR”.
A Marinha Portuguesa não constituiu excepção àquela regra e como consequência de, em 9 de Março de 1916, a Alemanha ter declarado guerra a Portugal algumas dezenas de navios mercantes (uns de comércio e outros de pesca) e também numerosas embarcações de recreio foram requisitados, artilhados e incorporados na nossa Armada mercê da visão, dinamismo e energia do Capitão de Fragata Jaime Daniel Leotte do Rego que comandava a Divisão Naval de Defesa e Instrução a qual tinha sido mandada constituir por portaria de 5 de Julho de 1915.
Na presente exposição figuram 104 fotos de setenta e seis navios, trinta e cinco dos quais foram construídos propositadamente como navios de guerra mas os quarenta e um restantes foram adaptados para cumprirem missões militares durante o primeiro conflito mundial: vinte e seis deles começaram por ser navios de comércio, treze eram ex-navios de pesca e dois eram, inicialmente, navios de recreio.
Daquelas setenta e seis unidades apenas duas se perderam na Grande Guerra, uma delas foi o patrulha de alto mar “AUGUSTO DE CASTILHO”, que surge, em muitas publicações, erroneamente apodado de caça-minas, que nunca o foi. Como honrosas excepções o Comandante Jaime do Inso em “A Marinha Portuguesa na Grande Guerra” e o Comandante Saturnino Monteiro em “Batalhas e Combates da Marinha Portuguesa” têm a preocupação de repor a verdade, classificando-o, com rigor como patrulha.
Foram onze os arrastões requisitados em 1916 mas enquanto que oito deles foram utilizados na rocega de minas e com propriedade classificados caça-minas, três outros houve: O “REPÚBLICA”, o “ALMIRANTE PAÇO D`ARCOS” e o “AUGUSTO DE CASTILHO” que foram destinados a missões de patrulha e de escolta (e por isso dotados de artilharia um pouco mais importante que os restantes oito), sendo classificados patrulhas de alto mar. Porém, com a tendência que muitas pessoas têm para generalizar, (mesmo algumas com responsabilidades), houve quem chamasse caça-minas indiscriminadamente a todos os onze.
O N.R.P. “AUGUSTO DE CASTILHO” não era mais que o arrastão “ELITE”, (o primeiro arrastão Português destinado à pesca do bacalhau), mandado construir por encomenda da Parceria Geral de Pescarias Lda., em 1909, no estaleiro Cochrane and Sons, em Selby, Inglaterra. Tinha o deslocamento máximo de 801 toneladas, o comprimento de fora a fora de 48,76 metros e a sua velocidade não ia além de 9 nós assegurados por uma máquina alternativa de vapor com a potência de 704 H.P. Requisitado em 13 de Junho de 1916, foi artilhado inicialmente com uma peça Hotchkiss de 47 mm, em caça. Tempos depois foi-lhe montada uma segunda peça igual, em retirada e mais tarde a peça de vante foi substituída por uma Hotchkiss de 65 mm. Foram vários os encontros do patrulha de alto mar “AUGUSTO DE CASTILHO” com submarinos alemães. Em 23 de Março de 1918 navegando do Funchal para Lisboa, comandado pelo Primeiro Tenente Augusto de Almeida Teixeira, comboiando o paquete “LOANDA”, abriu fogo a cerca de 500 metros sobre um submarino inimigo que mergulhou prontamente. Em 21 de Agosto de 1918, navegando ao largo do Cabo Raso, comandado pelo Primeiro Tenente Fernando de Oliveira Pinto, atacou com tiros de artilharia um submarino alemão de grandes dimensões que desapareceu rapidamente.
No dia 14 de Outubro de 1918 navegando do porto do Funchal para o de Ponta Delgada, comandado pelo Primeiro Tenente José Botelho de Carvalho Araújo, escoltando o paquete “SAN MIGUEL”, da Empresa Insulana de Navegação, o qual, por sua vez, era comandado pelo Capitão da Marinha Mercante Caetano Moniz de Vasconcelos e transportava 206 passageiros e muitas toneladas de carga diversa.
Às primeiras horas da manhã foram os dois navios Portugueses avistados pelo submarino alemão U-139 que tentou atingir o paquete o que só não conseguiu porque o “AUGUSTO DE CASTILHO” se intrepôs entre o atacante e o atacado.
No combate desigual que se seguiu e que incrivelmente se prolongou por mais de duas horas, perdeu a vida o heróico Comandante Carvalho Araújo e mais seis elementos da sua guarnição de 42 homens.
A desproporção de forças era tão grande que o resultado do combate estava traçado desde o início bastando atentar-se no potencial ofensivo de cada um dos contendores.
O patrulha Português estava, como já se disse, artilhado com duas peças Hotchkiss, uma com o calibre de 65 mm. e outra de 47 mm. ao passo que o submarino U-139, era um dos maiores e mais modernos da armada alemã, e dispunha de duas peças de artilharia de 150 mm. e seis tubos lança-torpedos.
O facto do paquete “SAN MIGUEL” ter aumentado a sua velocidade ao máximo e por outro lado a bravura e a tenacidade de Carvalho Araújo, interpondo o seu pequeno navio entre o submarino e o paquete permitiram que este chegasse ao porto de Ponta Delgada com os seus 206 passageiros e 54 tripulantes incólumes e as suas muitas toneladas de carga intactas.
O “AUGUSTO DE CASTILHO”, esgotadas as munições, foi obrigado a render-se, não sem que os seus artilheiros tenham atingido repetidas vezes o submarino teutónico. Despojado de tudo o que os alemães conseguiram saquear acabou por ser afundado com cargas de demolição colocadas pelos alemães. Talvez o seu destino tivesse sido outro se os navios Portugueses durante a guerra estivessem artilhados com peças de maior calibre como foi, repetidas vezes, reclamado pelos seus comandantes.
O outro navio afundado na Grande Guerra foi o caça-minas “ROBERTO IVENS” sacrificado, quando no dia 26 de Julho de 1917, na sua abnegada missão de rocegar minas, na zona compreendida entre o Cabo da Roca e o Cabo Espichel, colidiu com um daqueles engenhos ali fundeados pelos nossos inimigos, o qual ao explodir provocou o seu afundamento e a morte de quinze dos vinte e dois elementos da sua guarnição.
Entre as vítimas figurou o Primeiro Tenente Raúl Alexandre de Cascaes que comandava aquele caça-minas.
O “ROBERTO IVENS” antes de ser requisitado, em 19 de Abril de 1916, era o pacífico arrastão da pesca do alto “LORDELO”, propriedade da Empresa Portuense de Pescarias, Lda, construído em Selby, em 1906. Tinha a arqueação bruta de 796 m3 , o comprimento de fora a fora de 42,72 metros e era propulsionado por uma máquina alternativa de vapor com a potência de 520 H.P.
Perdas humanas sofridas pela Marinha de Guerra durante o Primeiro Conflito Mundial:
2 Primeiros Tenentes
1 Segundo Tenente
4 Guarda-Marinhas
1 Aspirante de Marinha
5 Sargentos
129 Cabos e Marinheiros
142
Também em Abril de 1931, aquando dos movimentos sediciosos ocorridos nos Açores e na Madeira, cinco navios de comércio e quatro de pesca foram requisitados, alguns deles artilhados e enviados do continente para aqueles arquipélagos coadjuvando os navios de guerra também enviados.
Foram eles o paquete “CARVALHO ARAÚJO” da Empresa Insulana de Navegação que foi designado Cruzador Auxiliar E e a bordo do qual seguiu o Ministro da Marinha Almirante Magalhães Corrêa, o paquete “NYASSA”, da Companhia Nacional de Navegação, que foi designado Cruzador Auxiliar F, o paquete “PEDRO GOMES”, também da Companhia Nacional de Navegação, que actuou como transporte de tropas, o cargueiro “CUBANGO”, igualmente da Nacional, que serviu como transporte de hidro-aviões e o cargueiro “MARIA CRISTINA” da Sociedade Geral que funcionou como reabastecedor de carvão para as outras unidades.
Os quatro navios de pesca foram os arrastões “PORTUGAL”, “JOÃO GUALDINO”, “AZEVEDO GOMES” e “MARIA CRISTINA I” que foram designados Patrulhas A, B, C e D respectivamente. Pelo menos o “JOÃO GUALDINO” foi artilhado com duas peças Hotchkiss de 47 mm e é de crer que os restantes tenham sido semelhantemente artilhados.
Mais recentemente, durante a Segunda Guerra Mundial, apesar de Portugal se ter mantido neutral, houve necessidade de, em 1943, se requisitar sete navios de pesca de arrasto que foram classificados patrulhas e artilhados, uns com uma peça de 76 mm./40 e uma Oerlikon de 20 mm; outros com duas Oerlikons.
Os seus nomes, que foram mantidos mesmo enquanto requisitados, eram: “AÇOR”, “ALMOUROL”, “SERRA D’AGRELA”, “ALBÉRIA”, “ALGOL”, “ALMANCIL” e “ALTAIR”. Pelo menos os quatro últimos, além de artilharia, receberam também equipamentos de detecção de submarinos, de proveniência britânica, designados por Asdic.
Em 10 de Junho de 1945 as medidas de emergência terminaram no continente, sendo progressivamente, determinada a desmobilização destes navios que foram dispensados e puderam regressar ao seu pacífico labor.
Comandante José Ferreira dos Santos
Capitão da Marinha Mercante
Membro Efectivo da Academia de Marinha
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