10.º PRESIDENTE

Conselheiro Ernesto Rodolfo
Hintze Ribeiro
(n. 7 de
Novembro de 1849 | f. 1 de Agosto de 1907)
14 de Novembro de 1900 a
1 de Agosto de 1907
Doutor em Direito pela Universidade de Coimbra,
sócio efectivo da Academia Real das
Ciências estado, deputado, par do reino,
ministro de, chefe do partido regenerador,
etc.
Nasceu em Ponta Delgada a 7 de Novembro de
1819, faleceu em Lisboa a 1 de Agosto de 1907.
Era filho de Manuel José Ribeiro. Matriculou-se
na Universidade, e depois dum curso dos mais
brilhantes, em que recebeu vários prémios,
doutorou-se em 14 de Julho de 1872. Pouco
depois abriu banca de advogado na terra da
sua naturalidade, onde exerceu esta profissão
até 1877, ano em que partiu para Lisboa,
dedicando-se também à advocacia.
Entrando na política, filiou-se no
partido regenerador, cujo chefe era então
Fontes Pereira de Melo, e foi pela primeira
vez deputado em 1878, eleito pelo círculo
da Ribeira Grande, prestando juramento na
sessão de 24 de Janeiro de 1879. 0
discurso que proferiu na câmara, defendendo
a sua eleição, afirmou brilhantemente
os dotes e qualidades de orador, que tão
alto lugar lhe deviam dar entre os mais distintos
parlamentares do seu tempo. Versando todas
as questões com um tino raro, analisando
todos os assuntos com notável proficiência,
Fontes Pereira de Melo começou a distingui-lo,
confiando-lhe importantes comissões
parlamentares de que se desempenhou com o
maior critério e inteligência.
Caindo o ministério regenerador e subindo
ao poder o partido da fusão (históricos
e reformistas) presidido por Anselmo Braamcamp,
foi novamente deputado, pela oposição,
continuando a afirmar na câmara os seus
brilhantes dotes de polemista. Apresentou
diferentes projectos de lei, relativamente
ao distrito de Ponta Delgada.
Os seus triunfos parlamentares e a ponderação
com que apreciava as questões que se
debatiam, o indicaram para o governo do país,
e no ano de 1881, tendo caído o gabinete
progressista em seguida aos acontecimentos
produzidos pelo tratado de Lourenço
Marques, foi chamado ao poder o partido regenerador,
e sendo António Rodrigues Sampaio encarregado
de organizar ministério, convidou Hintze
Ribeiro para gerir a pasta das obras públicas,
para que foi nomeado em 21 de Março
desse ano; por motivo da saída do ministério
o conselheiro Miguel Dantas, dirigiu interinamente
a pasta dos estrangeiros, desde 29 de Abril
seguinte, de que foi exonerado em 14 de Novembro
do mesmo ano, sendo nesta mesma data nomeado
outra vez ministro das obras públicas,
no gabinete, também regenerador, que
se organizou sob a presidência de Fontes
Pereira de Melo, de que teve a exoneração
em 21 de Dezembro seguinte. Na sua gerência
das obras públicas apresentou em Cortes
diversas propostas de lei, de verdadeira utilidade,
entre as quais se contam: a aprovação
do contrato provisório com a casa Henry
Burnay & C.ª, em 7 de Maio de 1881, para
a construção e exploração
duma linha férrea de Lisboa a Sintra
e a Torres Vedras; autorização
do governo a contratar directamente, e sem
dependência de concurso, o lançamento
de qualquer linha telegráfica submarina,
que partindo do continente de Portugal ou
da ilha da Madeira, e dirigindo-se à
América, ou a qualquer ponto do globo
tocasse em alguma ou em algumas ilhas dos
Açores; a criação de
mais três lentes no Instituto Agrícola
de Lisboa; a aprovação do plano
da organização do serviço
florestal; a aprovação do plano
da organização do curso de comércio
do Instituto Industrial de Lisboa; autorização
para o governo executar no espaço de
5 anos, as obras necessárias para a
iluminação e balizagem dos Portos
e costas marítimas do continente do
reino e ilhas adjacentes, etc. Foi ministro
dos estrangeiros interino em 21 de Maio e
1 de Setembro de 1883, respectivamente exonerado
em 31 de Maio e 25 de Setembro do mesmo ano.
Transferido para a pasta da fazenda em 24
de Outubro de 1883, e exonerado em 20 de Fevereiro
de 1886; dirigiu interinamente a pasta das
obras públicas desde 24 de Outubro
de 1883 até 3 de Dezembro do mesmo
ano. A sua passagem pelo ministério
da fazenda foi assinalada com a remodelação
fazendária e a organização
dos serviços aduaneiros, há
muito tempo reclamados pela opinião.
Por carta régia de 1 de Janeiro de
1886 foi nomeado par do reino, prestando juramento
e tomando posse na respectiva câmara
na sessão de 15 desse mês. Na
câmara alta sustentou se sempre desassombradamente
na oposição, sendo um dos adversários
mais terríveis do partido progressista.
Tendo falecido Fontes Pereira de Mello em
Janeiro de 1887, o partido regenerador escolheu
para seu chefe o conselheiro António
de Serpa Pimentel, e no ministério
constituído em Fevereiro de 1890, sob
a sua presidência, entrou Hintze Ribeiro
para a pasta dos estrangeiros, então
bem difícil de dirigir, por causa do
conflito anglo - português, do ultimato
da Inglaterra de 11 do mês de Janeiro
antecedente, doloroso sucesso que obrigara
a pedir a demissão o ministério
progressista, que então estava no poder,
presidido pelo conselheiro José Luciano
de Castro. Esta mesma questão diplomática
fez também cair em Agosto o ministério
regenerador, constituído em Fevereiro,
assim como o ministério apartidário
presidido pelo general João Crisóstomo
de Abreu e Sousa, que se organizou em Junho
de 1891, depois de grandes dificuldades, e
da queda de outros gabinetes, que se não
puderam sustentar.
Em 18 de Dezembro de 1891 foi Hintze Ribeiro
nomeado conselheiro de estado efectivo, pela
vaga deixada pelo antigo estadista Carlos
Bento da Silva, falecido nesse ano. Em 1893,
António de Serpa Pimentel, sentindo-se
doente e cansado, conhecendo a preponderância
que Hintze Ribeiro tinha já no partido
regenerador e a sua grande ascendência
sobre os seus correligionários, declinou
o convite para formar ministério, e
indicou o grande estadista para presidente
do conselho Neste ministério, que se
organizou em Março do referido ano
de 1893, além da presidência,
encarregou se também da pasta dos estrangeiros,
conservando-se no poder até 17 de Fevereiro
de 1897. Neste gabinete também geriu
a pasta da fazenda desde 20 de Dezembro de
1893 até 7 de Fevereiro de 1897; voltando
interinamente à dos estrangeiros, em
10 de Setembro de 1895, de que foi exonerado
em 20 de Setembro de 1896. Falecendo em Março
de 1900 António de Serpa Pimentel,
Hintze Ribeiro de toda assumiu a chefia do
partido regenerador o conselheiro Hintze Ribeiro,
isto é, reconhecido oficialmente nessa
qualidade, pois que a sua chefatura era já
um facto. Nesse ano de 1900 teve o encargo
de organizar o ministério, a que presidiu,
tendo também a pasta dó reino,
sendo exonerado em 1904. Novamente foi encarregado
de constituir gabinete, em Abril de 1906,
sendo o presidente do conselho e ministro
do reino. Este ministério teve curta
duração, conservando-se apenas
57 dias. Apresentou ao parlamento a lei que
resolvia a questão dos tabacos, questão
que motivara a queda do ministério
progressista e a cisão dada nesse partido,
donde se formou o grupo dos dissidentes. Dois
factos se deram então, que lhe causaram
enorme desgosto; foi a insubordinação,
em 8 de Abril, da guarnição
do cruzador D. Carlos, ancorado no Tejo, e
a do dia 13 da guarnição do
couraçado Vasco da Gama, factos da
maior gravidade ocorridos a bordo dos mais
poderosos navios da nossa marinha de guerra,
que pôs em sobressalto a população
de Lisboa, e teve dolorosas consequências,
promovendo violentos ataques contra a imprensa,
tanto republicana como monárquica;
o outro facto, foi depois das eleições,
efectuadas a 29 de Abril, com cujo resultado
sofreu um grande choque, a manifestação
que na noite de 4 de Maio se deu na estação
do Rossio à chegada do Dr. Bernardino
Machado, em que se deram lamentáveis
acontecimentos que obrigaram a policia a intervir
violentamente. As medidas rigorosas que então
tomou contra os revoltosos, que foram muito
mal recebidas, e a carta que o rei D. Carlos
lhe escreveu sobre esse assunto, e negando-lhe
o adiamento das Cortes, que ele solicitara,
o desanimaram completamente, e vendo-se sem
forças para reagir, apresentou a demissão
do ministério, sendo então encarregado
de organizar novo gabinete o conselheiro João
Franco. Hintze Ribeiro era um dos vultos mais
prestigiosos da política portuguesa,
apreciado no país e no estrangeiro,
onde recebeu as mais cativantes provas de
estima e simpatia, numa viagem que já
havia empreendido a algumas das primeiras
capitais da, Europa, para descansar e tratar
da sua saúde abalada pelo excesso de
trabalho. Depois de deixar o poder pela última
vez, sentiu-se bastante doente, e entrando
em convalescença, fez uma viagem ao
estrangeiro para se distrair, mas a ferida
que recebera no seu amor-próprio de
homem político, fora tão profunda
que nunca cicatrizou. Regressando, ainda tomou
parte nos debates parlamentares, atacando
a orientação política
do seu sucessor, mas a vida já se lhe
ia extinguindo. Tendo falecido o conde de
Casal Ribeiro, que era seu amigo íntimo,
quis, apesar do seu melindroso estado de saúde,
acompanhá-lo ao cemitério do
Alto de S. João. Foi, mas pouco depois
do cadáver ter entrado no jazigo, Hintze
Ribeiro caiu fulminado ao encaminhar-se para
a porta do cemitério. A imprensa política
de todos os partidos, até mesmo os
que lhe eram mais adversos, lhe prestaram
as maiores homenagens, publicando saudosos
artigos em frases sentimentais, lastimando
tão grande perda para a política
portuguesa. Hintze Ribeiro possuía
as mais altas distinções, e
entre elas o Tosão de Ouro e as grã-cruzes
da Torre e Espada, da Legião de Honra,
e da ordem dos Serafins.
Escreveu:
A teoria e legislação do
recambio, 1870; Os fideicomissos no
direito civil moderno (comentário
aos artigos 1866 a 1874 do Código Civil
Português), 1812; 0 caso julgado,
em face do direito português e da filosofia
do direito, 1872; A reforma da legislação
comercial, 1877; A questão Salamanca,
1882; Reorganização dos serviços
das alfândegas, 1885; A questão
da fazenda, 1888; Questões parlamentares,
1888. Responsabilidades na questão
de fazenda, discurso proferido na Câmara
dos pares do reino nas sessões de 31
de Maio e 1 de Junho de 1888. 0 regímen
da divida portuguesa, discurso proferido na
mesma câmara nas sessões de 23
e 25 de Abril de 1898. Entre outras biografias
de Hintze Ribeiro indicaremos a que foi escrita
em inglês pelo Sr. Simões Ratola.
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