António Guilherme Paulo Vallada
É para mim uma imensa honra sentar-me neste Conselho Supremo, entre Pares tão ilustres e distintos sendo, creio, o mais jovem de todos. Entrei para esta Casa em 1986 e acompanhei todo o percurso ascendente depois de épocas difíceis. Nesse sentido, relembro aqui a figura ímpar que foi o General Themudo Barata que me incentivou ao estudo da história deste Palácio da Independência, que editou há vinte anos e, mais recentemente, numa nova edição, que prefaciou, em 2000. Este estudo veio na senda de outro em que, com a Dra. D. Ana Maria Homem de Mello, que hoje toma posse neste mesmo Conselho, acerca de D. Antão de Almada, premiado pela Sociedade Histórica em 1990 e publicado alguns anos depois. E fico muito feliz que essa figura grande de D. Antão de Almada que ressuscitámos para a história desta casa há quase vinte anos não ficou esquecida tendo sido recentemente criado pelo nosso ilustríssimo e, permitam-me, dinâmico Presidente da Direcção, Doutor Jorge Rangel, o Instituto com o seu nome.
Desde essa época que tenho o gosto a de ter como Amigos algumas de V. Exas., nomeadamente o Dr. Carlos Silva Gonçalves, o Eng. Ribeiro Rosa, o Dr. Marques Palmeirim, ou os Senhores Hélder Sobral de Mendonça e António Pereira Coutinho.
Do mesmo modo, é para mim uma honra tomar entrada neste Conselho num período em que é presidido por um dos Homens mais brilhantes da Academia e em todos os aspectos da Vida Portuguesa, o Prof. Doutor Adriano Moreira e que tive o privilégio de melhor conhecer durante a Visita Oficial do Senhor Presidente da República ao Brasil, em Março do ano passado.
Mas o motivo que me faz aqui hoje intervir é outro. É costume fazer o elogio do antecessor na cadeira. Quero dizer que o conheci no dia 24 de Maio de 1987 que, por sinal, era o dia em o Senhor Eng. Paulo Vallada que tomava posse nesta Casa como seu Delegado para o Porto. Paulo Vallada entrou como sócio da Sociedade Histórica da Independência de Portugal a 30 de Abril desse ano, tendo o número 3217. Dois anos depois, tomou posse neste Conselho Supremo, a 15 de Março de 1989.
António Guilherme Paulo Vallada nasceu no Porto em 1924 e teve papel importante como empresário e político no nosso País. Em 1946, matriculou-se na Universidade do Porto onde se licenciou em Engenharia Civil pela Faculdade de Engenharia, em 1949, com a classificação de 13 valores. No ano seguinte, viajou para Itália, onde fez um curso de pós-graduação no Instituto Politécnico de Milão.
Iniciou a sua vida profissional em África, mais concretamente em Moçambique na década de 1950 onde foi responsável por projectos tão importantes como o caminho-de-ferro de Limpopo e o Liceu de António Enes. Entre 1950 e 1958 criou e administrou empresas de construção civil, e obras públicas, onde se distingui por dezenas de outros bem sucedidos projectos. Na década de 1960 alargou a sua actividade a Angola e ao Brasil, essencialmente na mesma área da construção civil.
Desde os anos setenta e até ao fim da sua vida administrou a sua empresa na Areosa, Porto, que havia sido adquirida à família de Manuel Pinto de Azevedo, figura que muito admirava.
Era um homem que estava muito à frente do seu tempo e, em 1979, dirigiu a Associação Comercial do Porto, instituição fundada em 1834 na senda da antiga «Juntina», a congregação que, nos finais do século dezoito, reunia os homens de negócios do Porto.Dirigiu esta Associação até 1983. Para além disso, foi fundador da CNAE (Conselho Nacional das Associações Empresariais) e da APGE (Associação Portuguesa de Gestão de Empresas).
Politicamente, foi Secretário Regional da SEDES (Associação para o Desenvolvimento Económico e Social), entre 1972 e 1974. Nesse ano, durante o 2.º Governo Provisório, assumiu também o cargo de administrador do Complexo do Cachão. Após reconhecido trabalho à frente da Associação Comercial do Porto e, devido ao seu empenho e brilhantismo, foi candidato à Câmara Municipal do Porto pela Aliança Democrática (PSD) em 1982, cargo que ocupou até 1985, sucedendo a Alfredo Coelho de Magalhães. Era um homem do Norte que amava a sua cidade e a sua região e que batalhava fortemente por ela. Durante esses anos, conferiu dignidade ao cargo e credibilidade invulgar nos dias que correm, tendo sido capaz de gerar consensos na Vereação e de realizar uma obra importante para a cidade. Durante os três anos da sua presidência, destacam-se as seguintes iniciativas: as recuperações do Mercado Ferreira Borges, com o apoio do jornal O Comércio do Porto, e do Monumento ao Esforço Colonizador, colocado na Praça do Império; a transferência das captações de águas de Zebreiros para Lever; o primeiro empréstimo obrigacionista de natureza autárquica, que fez escola; a resolução da questão da revisão do Plano Director da Cidade do Porto, transformado em Plano Director Municipal, sob a direcção do arquitecto Duarte Castel-Branco; a criação do Centro Regional de Artes Tradicionais; a colocação do conhecido Cubo da Ribeira, do mestre José Rodrigues, no centro histórico do Porto; a realização da Conferência Internacional Os Portugueses e o Mundo, tendo sido um paladino no combate pela concretização do projecto de navegabilidade do rio Douro e pela criação do Parque da Cidade.
Entre a sua obra escrita, contam-se «Por um Portugal dos Portugueses», em duas edições em 1989, uma delas da Sociedade Histórica da Independência de Portugal e « A Utopia Viável», editado em 2001. No prefácio deste último, Manuel Fernandes Tomás escreveu: “Esta viável utopia tem alguma coisa de irresistível e de muito raro nos dias que correm - é que apesar de ser um livro de sonhos, de emoções, de “utopias”, consegue ser também um repositório de desafios, de propostas, de “viabilidades”. (…) É um livro singular de um Homem singular. Digo isto como mera recomendação prévia ao leitor - porque quem passar demasiado depressa pelas páginas deste livro, ou não conhecer a intensa experiência de vida e a natureza empreendedora e simples do carácter do autor, pode pensar que esta “Utopia Viável” é um livro pretensioso ou, mais simplesmente, um desabafo filosófico do “último cavaleiro” do século XX. Quem, pelo contrário, quiser fazer deste livro uma digestão saborosa, ou conheça, como eu conheço, a obra e principalmente a personalidade do Eng. Paulo Vallada, fica com certeza muito impressionado e principalmente enriquecido com esta tão nova visão da Portugalidade, do Mundo e do Futuro.”
Prefaciou o livro «Congresso do Franjinhas, encontro político de 1963», de Ruy Miguel, publicado em 1999. Participou em diversos jornais, sendo apreciáveis os seus textos de opinião no «Primeiro de Janeiro», em «A Tarde» e no «Jornal de Notícias».
O amor pela cidade ficou registado em alguns dos seus escritos, que assim ficou perpetuado: «Uma política municipal de habitação para o Porto», em 1983, da sua autoria e prefaciou, entre outras, as obras: «Biblioteca Pública Municipal do Porto nos últimos 50 anos - um edifício em transformação», de Maria Fernanda de Brito, em 1985; e «Porto 1934, a grande exposição», de Ercílio de Azevedo, em 2003.
Após o cumprimento do mandato, aceitou um lugar na lista do PSD concorrente à Assembleia Municipal do Porto para o mandato de 1989-93. A sua intervenção pública no Porto não se limitou à actividade política na edilidade, tendo exercido uma reconhecida acção social e cultural. Ajudou a revitalizar velhas instituições como a Confraria das Almas do Corpo Santo de Massarelos, no âmbito da qual trouxe ao Douro, em 1993, a Regata do Infante, no contexto das comemorações do 5º Centenário da Descoberta da América. Impulsionou o início da conversão da Quinta de Serralves no Museu de Arte Contemporânea. Integrou a comitiva da Cooperativa Árvore presente nas derradeiras comemorações do 10 de Junho em Macau. Fundou e presidiu a Fundação da Juventude, na qual se instituiu uma Comunidade de Inserção com o seu nome.
Recebeu várias condecorações e, entre elas, a de Cavaleiro da Ordem do Império Britânico.
Esta figura carismática do Porto, reconhecida pela forte intervenção cívica e vasta cultura, morreu em Junho de 2006. Foi a enterrar no cemitério de Agramonte, em Paranhos. Na missa de corpo presente realizada na Igreja do Corpo Santo juntaram-se inúmeros portuenses, anónimos e ilustres, que lhe quiseram prestar uma última homenagem. A urna funerária estava coberta pela bandeira da Associação Comercial do Porto.
Na sequência do falecimento de Paulo Vallada, o Presidente da Repúbica, Aníbal Cavaco Silva, enviou uma mensagem de condolências à família. É o seguinte o teor da mensagem de condolências: «Paulo Vallada foi um ilustre Cidadão, um homem bom da Cidade do Porto, cujo desaparecimento empobrece Portugal. Deixa-nos um legado extraordinário: a de um espírito empreendedor ímpar e multifacetado, que se traduziu não só no domínio empresarial, onde se notabilizou desde jovem, mas também do domínio cultural e de intervenção cívica e política. Como Presidente da Direcção do Círculo de Cultura Teatral, TEP, Secretário Regional da SEDES, Presidente da Conferência Internacional “Os Portugueses e o Mundo”, membro das Comemorações do VI centenário do Nascimento do Infante D. Henrique, Presidente da Câmara Municipal do Porto e Vice- Presidente da Fundação da Juventude, o Eng. Paulo Vallada marcou a Cidade pela sua dignidade, elevação e sentido de cidadania activo, na busca da “utopia viável”, na expressão feliz de um dos seus livros. A vida do Eng. Paulo Vallada foi um exemplo de entrega à causa pública e de amor à sua Cidade e à sua Pátria. Em nome da República Portuguesa, envio as minhas condolências à Família e presto-lhe publicamente a minha sentida homenagem.
Aníbal Cavaco Silva, 10.06.2006»
Carismático, Paulo Vallada pedia aos jovens que não acreditassem na subsídiodependência. Não são precisos fundos comunitários; imperativo, dizia, é preciso ter ideias, projectos e realizar obras.
Curiosamente, nestes tempos em que, muitas vezes, o primeiro passo para uma pesquisa rápida é recorrer à internet, localizei um site que transcrevo:
Há muitos anos atrás, era eu um miúdo e Paulo Vallada Presidente da Câmara, pedi à autarquia um subsídio para uma exposição de fotografia que estava a organizar. Passado pouco tempo recebi um telefonema da Câmara a marcar-me uma reunião. Lá fui. A reunião era com o Presidente. Quis receber-me para me explicar por que é que não ia atribuir o subsídio. Nem que fosse só por isso, aqui fica a minha homenagem no dia em que vai a enterrar. Memórias de outros tempos, de facto.
Terminamos com uma frase que Paulo Vallada gravou na sua «Utopia» - «É imperativo o reencontro com o sentido humano e espiritual da vida!». Assim seja sempre!
Conselho Supremo, 13 de Janeiro de 2009
Doutor Jorge Pereira de Sampaio



